Por que a oposição erra tanto?

por Tarso Genro e Vinícius Wu

O elemento chave para a compreensão do atual período político no país é a análise da percepção da sociedade a respeito da crise econômica, de seus impactos no país e das iniciativas do governo federal para enfrentá-la. Mesmo rejeitando simplificações e afastando-se de uma abordagem economicista da realidade social e política do país, é possível afirmar que esta é a temática que organiza a atual conjuntura. Todo o esforço da oposição e de alguns “formadores de opinião” nos últimos meses em desviar as atenções da opinião pública nacional, exclusivamente, para a “crise” do Senado, aparentemente, tem como objetivo principal ofuscar o sucesso obtido pelo governo Lula em sua estratégia de enfrentamento à crise.

Afinal, a oposição apostou alto na fragilização do governo a partir da crise. Entre o final do ano passado e o início do atual, assistimos um verdadeiro bombardeio de informações, análises, matérias jornalísticas que sentenciavam um impacto devastador da crise no Brasil e procuravam fixar no imaginário nacional a percepção de que o Presidente Lula havia sido pretensioso e irresponsável diante da gravidade da situação. A crítica à utilização do termo “marolinha” pelo presidente tornou-se o mantra oficial dos grandes meios de comunicação, percorrendo desde os principais telejornais até programas humorísticos.

Há de se reconhecer que muitos dos “viúvos” do neoliberalismo e do “Estado Mínimo” procuraram, assim, encontrar uma forma para que suas antigas análises econômicas (“a economia mundial está bombando!”, chegaram a dizer alguns) fossem rapidamente esquecidas.

E como reflexo do tratamento dispensado pelos meios de comunicação de massa ao tema – até a propaganda de uma grande marca de cerveja o abordava – o nível de conhecimento da crise tornou-se bastante elevado (o que é muito positivo, diga-se de passagem). Em janeiro de 2009, 34,4% da população brasileira conhecia e 22,1% ficou sabendo da crise. Em maio deste ano já eram 38,7% conhecendo e 24,8% sabendo da crise. Ou seja, 63,5% da população estava, de alguma forma, ciente da crise no mês de maio.

A última pesquisa de opinião do Datafolha, divulgada em 16 de Agosto, confirma uma tendência já apontada por outros institutos: o Presidente Lula mantém altos índices de aprovação, mesmo após a crise econômica internacional. Segundo o Datafolha, 67% dos brasileiros consideram o governo Lula bom ou ótimo. A ultima pesquisa de opinião publica nacional CNT/Sensus, uma das mais completas entre as produzidas atualmente no país, já havia demonstrado que, após oscilar negativamente em março deste ano, a avaliação do governo, recuperou-se em maio. No levantamento da Sensus, 69,8% consideraram o governo positivo e 23,9% regular. Na pesquisa anterior eram 62,4% e 29,1%, respectivamente.

O governo agiu e a população reconheceu. De acordo com a mesma pesquisa, a situação do emprego no país melhorou para 32,3% da população, enquanto a amostragem anterior indicava apenas 20,9%. E a expectativa positiva, ou seja, o percentual dos que acham que a situação do emprego no país vai melhorar era de 48,8% e saltou para 56,4% em maio, segundo a pesquisa CNT/Sensus.

E, mais uma vez, o feitiço virou-se contra o feiticeiro – o que, aliás, tem se tornado recorrente nos embates entre governo e oposição. Após todo o trabalho de acusações e denúncias, realizado pela oposição, que visavam transmitir uma imagem de incompetência e falta de comando no combate à crise, o governo Lula termina por capitalizar sozinho todos os resultados positivos, inclusive os que não são necessariamente de sua responsabilidade.

Em termos de avaliação, é possível afirmar que o pior da crise já passou. Aliás, em relação à crise, em maio 50,4% dos brasileiros acreditavam que o governo estava lidando adequadamente com a crise, contra 40,1 % registrados em março. 55,9% acreditam que o país sairá fortalecido da crise e apenas 19,7% acham que sairá enfraquecido.

Mas o que realmente está acontecendo?

As pesquisas de opinião apenas refletem os resultados reais obtidos pelo governo em sua estratégia de enfrentamento à crise. Medidas como a flexibilização dos depósitos compulsórios, as reduções da carga tributária, a ampliação e facilitação do crédito em diversas áreas e a redução substancial da taxa Selic, associadas à uma reserva cambial superior a U$ 200 bilhões, entre outros fatores, permitiram não apenas que a economia brasileira fosse uma das últimas a ser atingida, mas também seja uma das primeiras a apresentar sinais de recuperação, com a retomada do fluxo de capitais e captações externas.

Nas crises anteriores o país era obrigado a adotar medidas econômicas pró-cíclicas: aumento de juros; ampliação da dívida pública; aumento do superávit primário; corte de investimentos e gastos correntes, o que gerava quedas maiores do PIB, ampliação do desemprego e da instabilidade econômica.

Já no atual modelo, o país pôde adotar uma política macro-econômica anticíclica, reduzindo juros e ampliando a oferta de crédito dos bancos públicos. Medidas acompanhadas pela manutenção dos investimentos, corte de impostos e redução do superávit primário. A atuação dos bancos públicos foi decisiva. Somente o BNDES recebeu do Tesouro Nacional o equivalente a R$ 100 bilhões, permitindo um crescimento de até 85% na oferta de crédito pelo banco em 2009.

Crise não esfriou indústria automobilística
Crise não esfriou indústria automobilística

Além disto, o programa “Minha Casa, Minha Vida” prevê um aporte de R$ 28 bi em subsídios e R$ 60 bi em investimentos. O reajuste do salário mínimo injetou R$ 20 bilhões na economia em 2009, o Bolsa-família outros 12 bilhões e a redução do IR pessoa física mais 5 bilhões. O governo reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e estabeleceu alíquota zero (PIS/COFINS) sobre alguns artigos, entre outras medidas de redução da carga tributária. Como resultado, obtivemos um aumento de 26% na venda de geladeiras; 30% em máquinas de lavar; 10% em material de construção e a indústria automobilística manteve-se aquecida, registrando mais de 300 mil licenciamentos de veículos em Junho deste ano.

Já em 2008, ao agir rapidamente, o governo federal havia proporcionado uma surpreendente reação do setor automotivo e o país fechou o ano com uma produção superior a três milhões de unidades. O Brasil passou para a quinta posição no ranking dos maiores mercados automobilísticos do mundo, deixando França e Grã-Bretanha para trás.

A vitalidade do mercado interno reduziu os efeitos da crise no país. O consumo popular – estimulado pelas políticas de transferência de renda – impulsionou as vendas em diversos segmentos no ano de 2008. O setor de vestuários, tecidos e calçados fechou o ano registrando crescimento de 18,2%. O varejo supermercadista alcançou faturamento de R$ 170 bilhões – um crescimento de 8,98% em relação a 2007.

E assim, apesar da crise, em 2008, as 500 maiores empresas brasileiras somaram uma recita liquida total de R$ 2,2 Trilhões, registrando um aumento de 24,9% em relação ao ano de 2007.

Porém, o mais relevante foram os resultados demonstrados por um estudo do IPEA divulgado recentemente, que atestou já ser possível afirmar que “as trajetórias convergentes de redução da desigualdade e da pobreza não foram interrompidas, mesmo durante a crise internacional”. Em junho de 2009, o índice de Gini – que mede a desigualdade – alcançou o seu menor patamar nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil.

A situação atual apresenta um fato novo em relação a outras crises econômicas internacionais. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, “ao contrário dos períodos de 1982/83, 1989/90 e de 1998/99, quando a inflexão econômica implicava aumento da pobreza nas regiões metropolitanas, não se observa crescimento na taxa de pobreza desde o último trimestre de 2008”.

Somente estes resultados podem oferecer uma explicação razoável para a ampliação dos índices de aprovação do governo, mesmo sob constante ataque da oposição e de parcela da grande mídia e em meio a uma suposta crise “sem precedentes” no Senado Federal.

Não se trata de sugerir que a “crise” do Senado seja um fato irrelevante ou, ainda, que a população não esteja atenta a temas como este. Menos ainda, pretendemos aqui desconsiderar a necessidade de uma apuração rigorosa, que identifique responsabilidades e resgate a imagem do Congresso perante a nação. O que não é admissível, no entanto, é que o país se veja paralisado em função da agenda do Senado. O debate sobre as estratégias de enfrentamento à crise econômica internacional simplesmente desapareceu da agenda política do país! Foi por isto que o Presidente Lula se viu obrigado a manifestar uma opinião impopular a respeito da crise do Senado, a fim de assegurar a governabilidade e a estabilidade institucional. E a população soube diferenciar este esforço de uma eventual cumplicidade do presidente com atos irregulares cometidos no Senado. Até por que o combate à corrupção, realizado pela Policia Federal e por órgãos de controle, permanece ativo e a população vem reconhecendo este esforço.

O fato é que, ao desconsiderar o significado do governo Lula na vida real dos brasileiros e brasileiras, de todas as classes sociais e regiões do país, a oposição repete, sistematicamente, os mesmos erros que levaram seu candidato nas eleições presidenciais de 2006 a uma retumbante derrota. O grande teste para o governo Lula, em 2009, como demonstram as pesquisas de opinião e o próprio discurso da oposição e da grande mídia no final de 2008 e início deste ano, foi a crise internacional. Os números estão aí, a demonstrar o que o Governo Federal logrou realizar em um cenário internacional extremamente adverso. Com a palavra, a oposição.

One Comment em “”

  1. erickfigueiredo Says:

    Popularidade de Lula é um fenômeno da ignorância popular?

    A mídia nos tenta (quando dizemos nós, me refiro aos nordestinos, pobres e sem estudo) fazer acreditar que o povo está mais preocupado com as bolsas família, aposentadorias, empregos, tudo que é de seu interesse direto. A macroeconomia ele não entende, nem opina. Também tentam-nos fazer acreditar que Serra, FHC ou Lula, têm um passado de esquerda.

    Entretanto temos que considerar que a linha de atuação dos dois governos, FHC e Lula são diferentes: o primeiro, neoliberal, altamente privatizante, já que enfraqueceu e entregou várias empresas inclusive a Petrobrás (em parte, pelo menos), algumas delas de interesse estratégico como no caso da Vale e privilegia o grande empresário com o discurso que, com o seu fortalecimento, possa distribuir as riquezas geradas com recolhimento dos impostos o que, na prática, não é verdade; o segundo, que não podemos chamar de estatizante porque não estatizou nem criou monopólio de nada que já fosse, mas fortaleceu as empresas estatais tornando-as melhores e capazes, privilegia investimentos na área social. Com isto, de um lado distribui melhor as riquezas e de outro pulveriza os investimentos, fortalecendo o consumo e beneficiando o empresariado com ênfase para o micro, pequeno e médio, que incrementa a economia através deste próprio consumo levando ao desenvolvimento do país como um todo e aumentando a distribuição de renda.

    Não é tão sutil assim. Neste caso não podemos dizer que FHC e Serra sejam de esquerda uma vez que o social fica em segundo plano. O estado não distribui: isto fica para o mercado.

    Por outro lado, atuando com uma linha mais à esquerda, Lula cortou privilégios para os grandes empresários, que são anunciantes, sem criar antes uma base sólida de apoio midiático. Isto atraiu para si uma enxurrada de ações que, desde o princípio, tenta sua derrubada. Enfrenta preconceitos contra sua origem de pobre, nordestino e sem instrução e uma campanha que visa produzir notícias que levem ao descrédito aquilo que faz e, principalmente, o que não faz ou que não se preocupou em exterminar. Tivemos o “cáos aéreo”, que na realidade não tem nada a ver com o governo federal. Tivemos o “mensalão”, que até hoje é lembrado, mas que sabemos que não teve início em seu governo, mas foi possibilitado pela privatização via tubarões e se iniciou há muito tempo atrás. Tivemos a crise financeira mundial, na qual a mídia atuou na tentativa de provocar a desestabilização psicológica do empresário e do consumidor provocando o caos financeiro mas que, felizmente, não deu certo. Tivemos a “crise do senado” visando atacar o seu novo aliado, que foi aliado de todos os governos desde a ditadura militar, pulando de navio em navio à medida que estes fazem água, o conhecido José Sarney através dos atos secretos que, mais uma vez, teve início no governo FHC com ele próprio e o ACM (lembram?).

    Ou seja: a mídia “descobriu” no governo Lula todas as mazelas de governos anteriores e imputou-lhe culpa, na tentativa de desacreditá-lo perante a opinião pública destruindo o apoio deste próprio povo, que eles julgavam pelo estigma de pobres, nordestinos e sem instrução: logo, idiotas. Erraram: pobres sim, nordestinos sim, ignorantes sim, burros não. Este povo defende seus interesses da mesma forma que os empresários paulistanos ricos e cultos o fazem. E é aqui que entra a palavra chave do que foi dito acima: “interesse“.

    Em uma democracia estão em jogo interesses. E o povo agora descobriu que ele pode defender seus próprios interesses e que este interesse não é o mesmo que o dos empresários paulistas ricos e cultos. Descobriu também que a democracia deve privilegiar o interesse da maioria e que este é o caminho correto para o desenvolvimento do próprio país. Ou seja: descobriu que a macroeconomia boa é aquela que traz desenvolvimento para o povo. Logo, para o país. E manda às favas as teorias econômicas totalmente furadas que causou a crise financeira.

    Por isso o governo continua tendo altos índices de popularidade: é um fenômeno da sabedoria popular.


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