Por Cesare Battisti, evitemos a infâmia

Daniel Aarão Reis*

Na manhã do dia 20 de março passado, fui apresentado a uma pessoa que até então desconhecia: Cesare Battisti. Sem pedir licença, entrou por debaixo da porta, em fotos e manchetes dos jornais do país. Algemado e cercado por cinco policiais, todos de preto, pesadamente armados com fuzis metralhadoras, no espetáculo mediático a que parece se comprazer de uns tempos para cá a Polícia Federal, para mostrar serviço, o homem franzino tentava aparentar um mínimo de naturalidade, um sorriso gauche nos lábios, a angústia, certamente, no coração.

Quem era Cesare Battisti? Por que merecia os holofotes da grande mídia tão ciosa e avarenta de seus preciosos espaços? 

Italiano de origem, nascido nas cercanias de Roma,  em 18 de dezembro de 1954, portanto,  com 53 anos incompletos, Battisti já deixou longe a juventude, atravessada em fins dos anos 60 e começos dos 70 do século passado. Tempos quentes e turbulentos, quando não poucos imaginaram que o mundo iria radicalmente mudar, e já estava mudando. Para acelerar os ritmos, mobilizar vontades e superar resistências formaram-se em toda a parte organizações e partidos políticos.  Para vencer e convencer, com seus propósitos apocalípticos e catastróficos, não hesitaram em recorrer às armas, à luta armada, às guerrilhas urbanas e rurais. A revolução estava à vista, e seca a pradaria: bastaria uma faísca, e o mundo se incendiaria. 

A organização a que se filiou Cesare Battisti, Proletários armados pelo comunismo (PAC), foi uma destas vanguardas, como então se auto-denominavam, e gostavam de se figurar. Na Itália, em certo momento daqueles anos, constituíram-se redes de organizações e grupos que chegaram a por em xeque o Estado: eram as chamadas Brigadas Vermelhas. O PAC era um elo, um nó, desta rede, envolvidos todos no grandioso projeto de revolucionar a sociedade, destruir o capitalismo, instaurar o socialismo através da ditadura revolucionária, apresentada, numa pirueta dialética, como a quintessência da democracia social e proletária.

Foram à luta, apostando o tudo por tudo, arriscando a própria vida e colocando em risco vidas alheias, cuidando pouco, ou nada, de ouvir as próprias sociedades, inebriados por inabaláveis certezas, em busca de povos imaginários  e de exaltantes triunfos.

Perderam a aposta. Foram derrotados. Os propósitos políticos não ecoaram. As gentes lhes viraram as costas. A  polícia política fez o resto, recorrendo não raro à tortura, como de hábito.

Quando tudo já estava perdido, ou quase, em fins dos anos 70, Cesare Battisti foi preso pela polícia italiana. Entretanto, beneficiando-se de condições favoráveis, deu um pulo de gato, evadiu-se, foi para o México, onde se ligou, afetiva e politicamente, aos movimentos insurgentes que pululavam na região, empolgados e articulados pela revolução sandinista, então vitoriosa.

Um pouco mais tarde, na França, F. Mitterand, eleito presidente no início dos anos 80, retomando as melhores tradições do país, abriria um largo espaço para acolher asilados políticos das derrotas que se sucediam. Exigia, em contrapartida, como é praxe nestes casos, que os asilados renunciassem a atividades políticas voltadas para os países de origem, principalmente, é óbvio, que suspendessem todo e  qualquer tipo de ação que se relacionasse, direta ou indiretamente, com os propósitos anteriores de enfrentamento violento com a ordem.

Fluíram, então, para a França dezenas de ex-militantes envolvidos nos projetos revolucionários malogrados dos anos 60 e 70, italianos e outros, entre eles, Cesare Battisti. Assim, desde 1990, nosso personagem radica-se na França, asilado político, sob proteção da chamada doutrina Mitterand

O governo italiano, inconformado, demandou a extradição. Fracassou. E tinha mesmo que fracassar, por impertinentes e juridicamente insustentáveis suas razões.   Quaisquer que tivessem sido as atividades de Cesare Battisti, fossem quais fossem os crimes cometidos segundo as leis italianas, era cristalino o caráter político das ações, as motivações e as finalidades políticas dos projetos revolucionários do PAC, das Brigadas Vermelhas e dos milhares de militantes italianos que se envolveram em ações armadas naqueles anos de violência, de tortura e de medo.

Mas o aparelho judiciário, como se sabe, não tem compromissos essenciais com a Justiça,  é uma pesada máquina que opera e se reproduz. Julgou Cesare Battisti à revelia, em processos truncados e denunciados como fradulentos e inconsistentes, chegando aos resultados esperados: duas condenações, duas cadeias perpétuas. Ou seja, neste caso,  para pagar seus erros na Itália, uma vida apenas não bastará, Battisti vai precisar  reencarnar.

A salvo desta sanha, acolhido e asilado na França,  Cesare Battisti reconstruiu a vida. Ganhando o próprio sustento, refez-se, evidenciando inclusive algum talento como escritor, publicando livros onde se entremeavam romances policiais e reminiscências pessoais, encruzilhadas entre ficção e realidade. A situação parecia tão consolidada que ele se sentiu encorajado a solicitar a nacionalidade francesa, o que fez no início do novo século.

A França, no entanto, não tem apenas tradições de liberdade. As tem também policialescas. É um dos muitos paradoxos da nação francesa: gosta da liberdade e ama a polícia. Amando embora a liberdade, nunca deixa de apreciar a polícia. Segundo as circunstâncias, e desgraçadamente elas são frequentes, ama-se mais a polícia do que a liberdade. Assim, Jacques Chirac, sucessor de Mitterand, depois de algo hesitar, e incentivado por seu ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, atual candidato a presidente da república, e que encarna melhor do que ninguém a vocação policial dos franceses,  revogou, em 2004,  a doutrina Mitterand.

Assim, Cesare Battisti, que dormira asilado, acordou armadilhado. O governo e o aparelho judiciário franceses, de protetores, metamorfoseados em perseguidores, no seu encalço. Prenderam-no. E se aprestaram a entregá-lo à polícia e ao governo italianos. Houve um grande debate. As melhores vozes da França, que não temem defender as boas causas, e travar o bom combate,  mesmo quando a atmosfera parece desfavorável, mesmo quando a corrente empurra na direção da mediocridade e do conformismo, mesmo quando não é certa a vitória,  levantaram-se, protestaram. O máximo que obtiveram foi o relaxamento da prisão, um tempo de liberdade vigiada. Foi o suficiente. Cesare Battisti sumiu no espaço. Em fuga. Mais uma vez. Um destino.

Agora, Cesare Battisti está novamente na prisão. Desencadeia-se uma vez mais a sanha dos poderosos que o caracterizam como terrorista, termo vago por excelência, sujeito a intensas controvérsias, e cuja utilização tem como evidente objetivo construir entre o preso e a opinião pública um fosso de incompreensão e de hostilidade. Já no horizonte, a infame hipótese da entrega.

Cesare Battisti é um político. Goste-se ou não de suas opções e de suas ações, presentes ou passadas, é inquestionável o caráter político das atividades pelas quais foi julgado, e condenado, na Itália. Não se trata de entrar no mérito de suas ações. De reivindicar um novo julgamento justo, como se isto fosse possível numa Itália ainda devorada pelo ressentimento contra os que desafiaram a ordem nos anos 60 e 70.

Armadilhado na França, não quero crer que Cesare Batisti vá merecer sorte igual em nosso país. Faria renascer entre nós o fantasma de uma outra infâmia: a entrega de Olga Benário à polícia nazista. Claro, as circunstâncias são outras, radicalmente diferentes, e a Itália democrática de hoje não tem nada a ver com a Alemanha nazista. Ressalvadas as diferenças, a comparação, no entanto, se impõe, porque essencialmente pertinente. O país, mais uma vez, estaria entregando um asilado político a uma polícia estrangeira. Pior do que tudo, se isto acontecer, haverá de ser com a cumplicidade de ex-asilados políticos, que, se vivos estão hoje, devem-no ao asilo político.

Se isto acontecer, será uma vergonha, uma humilhação. Das quais sairíamos acocorados, agachadinhos, diminuídos e apequenados. E com mais uma triste e melancólica história para contar a nossos filhos e netos.

Março, 2007.

* Professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense 

One Comment em “”

  1. Evanir C. Nunes Says:

    Prof.Aarão Reis, o parabenizo pela análise crítica deste ato insano do nosso Poder Judiciário. Parabenizo pela clareza de idéias ao recorrer à História e citar fatos marcados, registrados na memória da História Brasileira. Os tempos eram outros? Sim. Mas a prática é a mesma! Espero, como muitos, que o bom senso prevaleça e a ignorância se refugie!


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