Arquivo para julho 2010

Sem maquiagem, vocalista do Teatro Mágico fala sobre política e cultura

13/07/2010

do blog da Macro Osasco

Fernando Anitelli declara sua preferência por Dilma e Mercadante, diz que apóia o software livre e conta sobre as estratégias do grupo para divulgação das músicas na ‘era do download’

Encontramos o vocalista e músico da trupe O Teatro Mágico, Fernando Anitelli, 37, no escritório da trupe localizado na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Sem nariz vermelho nem maquiagem, o palhaço- poeta recebeu a equipe do Jornal PT- Macro Osasco em Contato para uma entrevista recheada de humor, interatividade e carisma que durou quase duas horas.

O Teatro Mágico entra em seu sétimo ano de estrada, com repertório que ‘mistura numa coisa só’ a música, a poesia, o teatro, o circo e a discotecagem, em meio a passos de dança e acrobacias. Embalado por ritmos que variam desde a suavidade do violino até as forte batidas de instrumentos de percussão, o espetáculo aproxima o público do sonho e da poesia.

Os artistas criam ferramentas que levam seus fãs a participarem através da troca de palavras, poesias e suspiros jogados ao ar. Fernando Anitelli declama um trecho de sua poesia, em tom de jogral, só dando continuidade após o público repetir tudo que foi dito. Idealizador do projeto, Anitelli se inspirou no romance alemão “O lobo da Estepe” (1927), do escritor alemão Hermann Hesse, naturalizado suíço para a criação da trupe.

Na entrevista abaixo, o artista falou sobre o lançamento do segundo DVD e o terceiro CD, que completa a trilogia do grupo. Também relatou sobre a luta do Movimento Música para Baixar, arte independente, software livre e direito autoral. Não se limitou ao campo da cultura, mostrou seu posicionamento político, sua opinião sobre o governo Lula e seu apoio à eleição de Dilma para presidente e Mercadante para governador em São Paulo.

Macro Osasco em Contato: Qual a relação que o Teatro Mágico tem com atual momento político? Fazendo um balanço com o último governo FHC e agora com o Lula, na questão cultural, o que representa o atual momento político?
Fernando Anitelli: O Teatro Mágico sempre teve preocupação muito grande em não deixar o projeto jamais parecer uma coisa colorida e saltitante, algo simplesmente pra entreter.
Eu sempre que escrevo uma música, uma letra, me preocupando com aquela última frasezinha – “moral da história”. O porquê e para quem eu estou fazendo tudo aquilo. Com o que a gente quer se envolver. Não tinha como ser diferente. O Teatro mágico sempre se envolveu com as questões pertinentes com o atual momento político, com o que está inserido no nosso contexto.

Macro Osasco em Contato: E com o Governo Lula?
Fernando Anitelli: O governo Lula nesses últimos anos tem dado espaço para o diálogo, que é uma coisa que a gente nunca teve antes, possibilidade de dialogar.

Macro Osasco em Contato: Como é ser músico hoje em dia? E como você avalia os espaços concedidos a artistas pelos meios de comunicação?
Fernando Anitelli: Milhões de músicos no país querem ter um espaçozinho e ficam clamando pelo bom humor do dono da rádio, ou do amigo do vizinho da tia do primo do conhecido do amigo da faculdade que trabalha.
Putz, rádio e Tv são uma concessão. O Estado fornece isso para alguém administrar publicamente, democraticamente a comunicação para o público. Só que não é isso que acontece. Não tinha como o Teatro Mágico ficar indiferente, todas essas questões são cabíveis de se colocar em cima de um palco, de conversar com o público.

Macro Osasco em Contato: Comente exemplos de benefícios conquistados no âmbito cultural.
Fernando Anitelli: Os pontos de cultura foram tão bem pensados… A questão do Vídeo, da música, do texto e da foto ao alcance de locais mais periféricos.
Se eu não me engano, Osasco e Salvador são as cidades que têm mais pontos de cultura. São nove pontos de cultura em cada região.

Macro Osasco em Contato: Existe mobilização para conseguir isso?
Fernando Anitelli: Não se faz uma revolução só pela internet. É preciso estar próximo, dialogar, sentir o cheiro do seu companheiro ou companheira. Temos um governo interessado em discutir o direito autoral, dando espaço para pontos de cultura, para o diálogo, para a realização de eventos e festivais, um governo que é preocupado com o plano nacional da banda larga. Agora, as pessoas têm um universo de bibliotecas infinitas, que o ser humano nunca teve acesso antes. Isso é essencial. Pessoas de mente aberta dispostas a trabalhar. Um governo voltado para a sociedade, disposto a distribuir a informação, capaz de fazer essa informação se cruzar, se compartilhar, se conjugar. Tudo isso aí para mim está envolvido nesse governo atual.

Macro Osasco em Contato: Movimento Música para Baixar, como você vê isso? Como é essa articulação? Qual é a forma de diálogo do Teatro Mágico com os outros movimentos sociais?
Fernando Anitelli: O movimento música para baixar, assim como qualquer movimento que a gente possa fazer comparação, surge pela necessidade de mudar esse marasmo cultural nosso. Colocamos até a batucada da Marcha Mundial das Mulheres em cima do palco, para fazer um som com a gente. Chamamos o Pedro Munhoz, que é envolvido com o (Movimentos dos trabalhadores rurais sem terra) MST, o Gog, do movimento Hip hop.Qualquer movimento acaba no palco. A questão feminista, da homossexualidade, do movimento negro, do meio ambiente, tudo se encaixa lá em cima. E o Movimento Música par Baixar envolve essas discussões todas.

Em relação ao direito autoral, em relação ao Jabá – que é crime – em relação ao acesso livre aos bens culturais. Como você vai falar de um movimento do povo como o negro, sem falar da música negra e sem falar do acesso que as pessoas têm a essas músicas?
Não tem como ficarmos de fora. É fundamental entender que o Movimento Música pra Baixar faz ponte com esses outros movimentos, não somente pra potencializar os outros, mas que os outros também potencializam o nosso e a gente junta tudo numa coisa só, com esse propósito de se melhorar, um ajuda ao outro.

Macro Osasco em Contato: Eleições 2010. Qual foi a repercussão que o grupo sentiu ao colocar o apoio a Dilma Roussef no twitter do Teatro Mágico?
Fernando Anitelli: Foi muito boa, tranquila. Eu tenho uma visão já conhecida, bem progressista, de esquerda. No meu ponto de vista, a Dilma é a pessoa que melhor se enquadra nesse momento, para dar continuidade pra esse motor que foi colocado, que o governo Lula conseguiu fazer dialogando, fazendo as modificações coerentes. Governar um país, fazer esse país chegar como chegou lá fora, ter tentáculos pra conseguir caminhar e se organizar.
A estrutura que o governo Lula já conseguiu colocar, só a Dilma é capaz de continuar, ela já esta inserida nisso.

Macro Osasco em Contato: É consenso de o grupo todo apoiar a Dilma e o PT?
Fernando Anitelli: O que a gente não vai deixar é ninguém [do grupo] apoiar o Serra. “Serra não!,Não me venha falar de Serra”. O Teatro Mágico tem uma diversificação política dentro dele, mas sempre para a esquerda.
Quem não pensa assim, não está de acordo com a nossa direção, com a nossa meta, inclusive com a nossa meta artístico-política. Mesmo assim continuamos caminhando. Temos a posição anti-Serra enquanto projeto. Até porque ele boicota há três anos, politicamente, a participação do Teatro Mágico na virada cultural. É coisa da Secretaria de Cultura pedir e eles boicotarem mesmo.

Macro Osasco em Contato: Como está o grupo hoje?
Fernando Anitelli: Em uma das melhores fases. Estamos conseguindo de maneira livre e corajosa invadindo os meios de mídia, de massa. Eles estão tendo que engolir a gente, não tem como não falar da gente. Estamos ocupando um espaço que já era nosso.

Macro Osasco em Contato: Como você avalia a cultura nacional voltada para a grande massa?
Fernando Anitelli: A cultura nacional não pode ficar fadada a conchavos dentro de escritórios, decidindo o que é musica boa ou ruim. Uma música ruim tocada mil vezes e vira um sucesso. [Nos meios de comunicação] Tem que ter a participação de todo mundo.

Macro Osasco em Contato: Qual a relação do grupo com o público? Quais os planos para o futuro?
Fernando Anitelli: Tornamos-nos cada vez mais acessíveis para todo mundo. Estamos aí com novos aparelhos, novos músicos. Dia 16 de julho tem lançamento do DVD do 2º ato no Rio de Janeiro – Fundação Progresso e em São Paulo no dia 18 de Julho na Cardeal Arco Verde – Carioca Club.
No segundo semestre a gente grava o 3º Cd, que será lançado no ano que vem, depois gravamos o DVD e findamos nesse primeiro momento nossa idéia de trilogia.

Macro Osasco em Contato: A política também estará inserida nesses trabalhos? Qual a preocupação social do trabalho de vocês? Quais questões vocês querem passar para o público?
Fernando Anitelli: Questões sobre ética, política, religião, feminismo, meio ambiente, comunicação, trabalho. Tudo isso junto com brasilidade, brincadeiras e poesias, nessa experimentação que a gente não para de fazer nunca. Sempre tentando melhorar, amadurecer. Então, é nesse momento que o Teatro Mágico está sempre experimentando. Também quero fazer outros trabalhos, além de ser um palhaço. Temos que nos dar essa possibilidade de experimentar outros projetos. Para que possamos trabalhar e se aprender com o outro.

Macro Osasco em Contato: Como você vê esses novos festivais culturais que envolvem debates? Usando como exemplo o Festival da Juventude em Fortaleza.
Fernando Anitelli: Eu sempre vejo com bons olhos esses festivais. Com debates, cultura, juventude, artistas nacionais com expressão progressistas, pensantes que promovem o debate. Os artistas também precisam se envolver com esse encontro no geral.

Macro Osasco em Contato: A candidatura do Mercadante. Como você enxerga a política e a questão cultural aqui na região metropolitana de São Paulo?
Fernando Anitelli: O Mercadante em São Paulo é fundamental. Por estarmos a muito tempo na mão do PSDB, muitas coisas não caminharam. A internet livre e o diálogo são coisas que culturalmente não caminharam. Essa possibilidade toda é o que deslumbramos com um possível governo do Mercadante, aliados a um governo federal que possa estar somando.
O Mercadante é capaz de cuidar de São Paulo de uma maneira muito criativa e bem livre. É assim, eu imagino um novo momento com o Mercadante.
A gente precisa se envolver muito mais. É preciso mais políticas culturais dentro das escolas. Agora foi aprovado pelo Ministério da Cultura que música também seja uma das matérias dentro da sala de aula. Você vai poder trabalhar com o lúdico e o pensar, então pode contar com a cidade de Osasco. Tivemos uma conversa com o Prefeito Emidio pedindo políticas públicas e deixando o grupo à disposição para cooperar.

Macro Osasco em Contato: Quer saber mais sobre a trupe?
Acesse: http://www.oteatromagico.mus.br ou leia na edição de julho no jornal da Macro Osasco.

¿Por qué la tolerancia es una palabra fea?

07/07/2010

por Juan Aria, publicado no jornal El País em 6/7/2010

Zapeaba hace unos días en la televisión cuando me encontré con una entrevista a Hussein, el fallecido rey de Jordania. De repente le escuché una frase que me dejó perplejo por unos segundos: “Tolerancia es una palabra fea”, dijo. En su opinión, con el diferente, con el emigrante, con el que consideramos de otra cultura no deberíamos usar la palabra “tolerancia”, sino “aceptación”.

Me quedé pensando: ¿pero no es tolerancia lo que pedimos, en defensa de los que no comulgan con nosotros? ¿Cómo puede ser fea una palabra con la que hoy sueñan todos los que defienden los derechos humanos, la libertad de credos y de culturas? ¿Es que no son entonces intolerantes los que rechazan a los que no piensan o no rezan o no visten o no cantan como nosotros o como a nosotros nos gustaría que lo hicieran? ¿No proclaman la tolerancia aquellos que defienden el derecho de todos a vivir como mejor les plazca mientras respeten a los demás?

Afirmar que la palabra tolerancia es fea, poco evangélica, demasiado raquítica, puede parecer una provocación. A mí me lo pareció en un primer momento, escuchando al pacífico rey de Jordania. Me fui, por ello, a consultar el Diccionario de la Real Academia Española donde el verbo tolerar, del latín, tolerare, se define así: “Sufrir, llevar con paciencia. Soportar algo que no se tiene por lícito, sin aprobarlo expresamente. Resistir, soportar”.

Empecé a pensar que quizás tenga razón Hussein bin Talal, porque soportar, sufrir, llevar con paciencia, que alguien profese una fe diferente de la mía, o que piense de otro modo en política de lo que a mí me guste, o que se pasee, si así le gusta, en traje de baño por la calle, o con la cara cubierta por el burka, es bien poco. No es así como se puede crear una paz estable, una convivencia en alegría. No basta con soportarlo, con sufrirlo, con tolerarlo. Limitarse a “soportar algo que no se tiene por lícito”, no va a evitar el choque de civilizaciones o la guerra de religiones. De soportar a prohibir hay un paso.

La mejor forma de convivir codo a codo con los que consideramos diferentes -¿ellos no nos considerarán también a nosotros diferentes?- más que tolerarlos es aceptarlos. La diferencia es enorme. El mismo Diccionario de la Lengua define el verbo aceptar como “aprobar, dar por bueno”, algo que “merece aplauso”.

Entendida así la famosa tolerancia que consideramos el sumo de nuestra generosidad con el distinto, las cosas cambian radicalmente. Si doy por bueno y hasta aplaudo la fe del otro aunque sea diferente de la mía -¿por qué tendría que ser peor?- no hay ya espacio para la contienda, para la reducción del diferente al que, simplemente “sufro con paciencia”. Con la aceptación de aceptar, en vez de tolerar, puedo incluso servirme del diferente para enriquecerme, porque puede que hasta descubra que lo que hace, piensa o cree es mejor o que por lo menos complementa lo que yo creo, hago o pienso.

Hay cristianos -recordemos al filósofo marxista Roger Garaudy- que en un cierto punto de su vida consideraron que la fe del Islam era mejor que la suya y la abrazaron.

Hay católicos que se han sentido atraídos por el budismo o por el judaísmo. Hay marxistas que se han convertido a los valores democráticos y capitalistas duros que se han pasado a las filas de la socialdemocracia.

Si acepto, es decir, si apruebo y hasta aplaudo al diferente sencillamente porque supone una riqueza para la sociedad, doy un paso adelante hacia la comprensión y la apreciación de lo que yo no tengo o soy, pero que tiene valor en sí mismo. Es bajo esta dinámica que las guerras pueden comenzar a ser inútiles; que los pueblos pueden llegar a complementarse en vez de antagonizarse. Pueden enriquecerse con sus diferencias no ya toleradas sino comprendidas y aplaudidas porque nos complementan.

Todo el que haya viajado a países de culturas y credos diferentes de los propios habrá podido observar -si viaja sin prejuicios- que los encuentros con lo diferente acaban enriqueciéndole, que se admira ante lo que desconocía y que quizás ni hubiese imaginado que existía.

Personalmente, confieso, que a pesar de haber estudiado en cuatro universidades, donde más he aprendido, lo que más ha enriquecido mi mente y mi corazón, han sido los viajes: a la África misteriosa, a la India mística, al Japón de la modernidad, a la China de la cultura milenaria, al Egipto de los Templos increíbles; a la Oceanía mágica. He aprendido más, en los años que llevo en Brasil, sobre la felicidad y sobre la sabiduría escondida en la pobreza, en lo que significa trabajar para vivir en vez de vivir para trabajar, que en todos los libros, por sesudos que hayan sido, que han pasado por mis manos.

Europa fue rica por su diversidad. Hoy se está empobreciendo espiritualmente porque, como mucho tolera las diferencias, sin aceptarlas ni aplaudirlas, a veces hostigándolas.

Si es cierto que solo envejece quien pierde la capacidad de sorprenderse, no me cabe la menor duda de que la aceptación feliz de lo nuevo y de lo diferente podría ser el mejor antídoto y la mejor terapia contra ese desencanto y aburrimiento que nos abotargan con solo lo conocido y hace que despreciemos lo desconocido que nos ofrece una seguridad falsa y estéril.

Tarso Genro: “Vamos fazer jus à personalidade política dos gaúchos”

05/07/2010

do jornal Sul 21

O candidato Tarso Genro acredita que o PT amadureceu com o governo Lula, um governo de coalizão que ele ajudou a formar. Aposta que houve, também, uma mudança na visão da população em relação aos partidos de esquerda. Por isso, durante a campanha, afirma que o PT não adotará uma posição que define como “agressiva-defensiva”, mas propositiva, comparando o que foi feito nos governos dos demais candidatos com a atuação de seu partido, no âmbito municipal, estadual e federal. Não fugiu de temas polêmicos, como o refúgio político a Cesare Battisti; a possibilidade de duplo palanque, no Estado, da candidata petista à presidência, Dilma Rousseff; e o apoio de partidos que já foram adversários do PT. (Texto de Rachel Duarte e fotos de Eduardo Seidl)

O senhor já foi candidato a governador em eleições anteriores.  O que mudou, em relação ao pleito atual?

Sou candidato pela terceira vez. Todos nós, do PT, sempre tivemos um rosário de candidaturas, até a afirmação do PT como um partido com capacidade de disputa. Na primeira vez, em 1990, concorri na verdade para construir o partido. Em 2002, concorri numa tentativa de ganhar e fomos derrotados no segundo turno. Hoje o contexto político e econômico do Brasil é completamente diferente. Temos um governo nacional de coalizão, que mudou o imaginário da população em relação ao Partido dos Trabalhadores.  E, sobretudo, mudou a visão que o povo tem sobre uma proposta de esquerda conseqüente, para enfrentar os impasses do desenvolvimento nacional e os impasses da globalização, que se encontra em uma profunda crise.

No campo da estratégia de campanha, anteriormente havia uma definição de ataque aos adversários políticos. Hoje o PT repetirá esta forma de debate?

Na verdade, nas outras oportunidades foram ataques defensivos. Nós éramos vistos, o PT e os partidos de esquerda, como uma espécie de “patinhos-feios” da abertura democrática. E nós éramos sempre colocados pela grande imprensa como um partido sem alternativas e sem capacidade de governar. Então a nossa posição era uma posição defensivo-agressiva. Hoje, com essa mudança que houve no país, e com as sucessivas administrações que o PT teve nas cidades, nos estados e, sobretudo no governo Lula – do qual eu participei mais de sete anos – isso mudou. Hoje somos um partido de proposição e de afirmação das mudanças. Somos, portanto um partido que disputa em termos programáticos e não mais meramente nos defendendo do cerco político que a esquerda sempre foi submetida no país, inclusive depois da Constituição de 1988.

O senhor, como a governadora Yeda Crusius e o ex-prefeito José Fogaça, tem experiência política local e nacional. O senhor se considera mais qualificado para uma gestão com boa relação federativa?

Penso que os três candidatos são pessoas experientes e têm uma trajetória política conhecida perante a opinião pública. O que deve ser avaliado é qual a proposta que estes candidatos representam e o que fizeram enquanto estavam no governo. Que objetivos eles atingiram? Como eles se comportaram diante das responsabilidades com o Estado? O nosso debate será esse. Nós vamos apresentar um programa de futuro e mostrar o que nós fizemos enquanto estávamos no governo. Sem desrespeitar os adversários, sem desqualificá-los, mas não sonegando o debate político-ideológico.

Na prática, como será?

Vou dar alguns exemplos. O José Fogaça (PMDB) integra um partido que está no governo de Yeda Crusius (PSDB). Qual a diferença entre os dois? Esta é uma questão política que tem que ser explicitada. Segundo, a trajetória de Fogaça como prefeito apresentou resultados. Vamos comparar estes resultados com os do governo do PT na Prefeitura de Porto Alegre. Em terceiro lugar, tanto Fogaça como Yeda, com todo o respeito que eu tenho por eles, sempre aceitaram essa chantagem ideológica do “caminho único” aqui no Brasil. Ou seja, de que só tinha uma saída, a de ficar de joelhos para o FMI e para a lógica da especulação do capital financeiro, e governar segundo a sua visão. Tanto que eles estavam vinculados ao governo do Fernando Henrique Cardoso, que levou o país à beira do abismo. O presidente Lula mostrou que é possível mudar e crescer com distribuição de renda. E nós estivemos junto com o presidente Lula nessa caminhada. Então são diferenças políticas e programáticas, não ofensas ou ataques pessoais. É isto que vai nos separar e nos identificar na disputa para o governo do Estado.

Como o senhor prevê utilizar a novidade da Internet na sua campanha? E uma curiosidade, é o senhor mesmo que escreve no seu twitter?

Eu já aprendi a mexer. Às vezes faço e às vezes dito para o meu assessor. Mas a frase sempre é minha, isso é indelegável. Esses meios de comunicação são uma novidade, são positivos, democratizam a informação e atingem uma certa faixa da sociedade, que não se interessa por política, muitas vezes. Mas são insuficientes para fazer uma campanha eleitoral. Não há nada que substitua o debate na cena pública. Seja de maneira presencial, seja na televisão ou nas mensagens em programas de rádio. Porque é isso que, em última análise, atinge as grandes massas. Então, na verdade nós temos que aprender a combinar esses meios eletrônicos novos com a velha campanha eleitoral. Eu sempre fui muito seduzido pelo contato direto com o eleitor, como nós estamos fazendo agora para compor o nosso programa. Ouvir muito as pessoas do povo, que não integram partidos, é o que dá mais vigor a uma campanha eleitoral. Pois as pessoas, quando se reportam a ti, se reportam de maneira não subordinada a um partido político. Estas são as pessoas que trarão mais subsídios para o debate. São as pessoas do povo, normalmente da parte de baixo da pirâmide social, e que não estão ideologizadas.

No âmbito da segurança pública, o senhor desenvolveu um projeto que está mudando o paradigma nacional. A fórmula que une inteligência policial com projetos sociais será utilizada no seu governo?

O estado que aplicou o Pronasci [Programa Nacional de Segurança com Cidadania] da maneira mais plena foi o Rio de Janeiro, até porque lá as questões são mais graves. E as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], que seguem o modelo do policiamento comunitário do Pronasci, estão tendo amplo sucesso. Já foram capa inclusive da revista The Economist, apontando uma mudança estrutural na segurança pública do país. Aqui no Rio Grande nós vamos aplicar integralmente o Pronasci. Eu posso dar centenas de exemplo, mas vou dar só um, que é o mais gritante. O Estado poderia ter criado uma estrutura institucional para permitir que os policiais gaúchos tivessem acesso ao plano nacional de habitação para o policial de baixa renda. Mas o Estado não fez isso. Esse programa é um esforço direto do Ministério da Justiça com a Caixa Econômica Federal e hoje já permitiu, no Brasil, que 17 mil policiais tenham seus imóveis. Ainda na área de segurança pública, pretendo dar um apoio fortíssimo aos Gabinetes de Gestão Integrada de Segurança Pública, com aparelhamento tecnológico, incluindo a Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal nestes gabinetes. A primeira coisa que vou fazer, caso for eleito governador, vai ser um convênio com a Polícia Federal e a Rodoviária Federal para integrá-las plenamente às ações contra corrupção e também naqueles crimes que são da sua competência, como o tráfico de drogas, contrabando e controle das fronteiras.

A Polícia Federal fez um trabalho exitoso na esfera nacional no combate à corrupção, enquanto o senhor foi ministro. O senhor irá utilizar as denúncias contra os seus principais adversários aqui no Estado no debate eleitoral?

É preciso esperar a finalização dos processos, dos inquéritos e o juízo definitivo do poder judiciário sobre o assunto. Qualquer manifestação precoce sobre este assunto, no âmbito de denúncias de corrupção, pode se tornar uma grande injustiça. Então este não será o tema que vou usar no debate. De minha parte, será o tema do combate à corrupção, independentemente de quem esteja envolvido nela, de qual partido for. Não acho que a utilização destes fatos, que presumidamente são fatos delituosos, que envolvem direta ou indiretamente pessoas do Estado, tenham um potencial cívico para melhorar a situação local e do País. O que foi feito pela grande mídia contra o presidente Lula, durante dois anos do seu governo, deve servir de lição para nós. Não devemos utilizar estes temas de maneira irresponsável, acho que este não é um assunto adequado para o desenvolvimento político do país e não pretendo utilizá-lo. Vou dizer, sim, como vou combater a corrupção aqui no Estado, que é como eu fiz no país. Nada mais do que isso.

Houve bastante polêmica na época que o senhor se posicionou no caso do italiano ex-ativista Cesare Battisti. O senhor acredita ter acertado, ao contrariar o parecer do Comitê Nacional de Refugiados e concluir que, por ter cometido crime político, Battisti tinha direito de permanecer no Brasil?

Essa é uma questão que foi ideologizada de má fé pela grande mídia. Então é natural que as pessoas fiquem confusas sobre o assunto. Eu só agi de acordo com os tratados internacionais sobre refugiados e direitos humanos. Isso foi escondido pela maioria da mídia. Inclusive as minhas decisões relacionadas ao caso Battisti foram fundamentadas em decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal sobre o mesmo assunto. O STF já não havia permitido a extradição de quatro ex-brigadistas italianos que tinham se refugiado no Brasil. Não foi dado o devido peso, na divulgação do caso Battisti, a estas decisões anteriores do Supremo. Fui criticado como se tivesse tomado uma decisão inédita, e isso constitui uma fraude informativa. Inédita foi, na verdade, a mudança de decisão do Supremo sobre o tema. Mas o STF manteve, afinal, uma posição de princípio, que é remeter ao presidente da República a solução do caso. Seria muito grave se isso mudasse. E isso foi mantido por cinco votos a quatro. Está nas mãos do presidente a decisão do Battisti. E acho que conseguimos sensibilizar uma parte da imprensa, que também divulgou os nossos pontos de vista. Houve inclusive uma coisa inédita: pela primeira vez, quando um ministro da Justiça sai do governo, houve um manifesto de juristas apontando a sua gestão como uma gestão exemplar. O fato nunca tinha ocorrido. Então eu me sinto satisfeito em relação a isso.

A imprensa teve comportamento diferente em relação ao caso Battisti e sobre a rediscussão da punição aos torturadores. Recentemente o STF manteve a Lei de Anistia no Brasil. Qual a sua opinião sobre essas situações?

Em relação à tortura, é um tema complexo. Na verdade, existe uma dubiedade para tratar deste assunto. Paira sobre a imprensa ainda o fantasma do poder militar no Brasil. Quando a imprensa divulga os processos contra torturadores no Uruguai e na Argentina, ela divulga de uma maneira mais isenta, mais livre, com menos espanto, com menos medo, me parece. E mostra os julgamentos que estão acontecendo lá. Quando é aqui no Brasil, parece que há uma espécie de temor dos formadores de opinião, de se chocarem com os porões da Operação Bandeirante, que estão todos soltos, produzindo blogues e vivendo normalmente. São os que mataram, assassinaram ou torturaram. Já os presos políticos, estes foram processados, cumpriram pena, foram presos, muitos torturados, depois foram anistiados. Então, eu acho que é uma espécie de temor reverencial à ditadura, que leva essas pessoas a divulgar de maneira tão deformada essa questão da punibilidade dos torturadores aqui no Brasil.

Nós temos que compreender isso dentro de um processo político, de uma transição política difícil, que no Brasil foi conciliada. Foi conciliada a tal ponto que o presidente do partido que dava suporte à ditadura militar se transformou no primeiro presidente da República que fez a transição para a democracia. Agora, a mim isso não impressiona, nem muda minha posição e nem me causa temor. Admiro e respeito as nossas Forças Amadas, pelo papel que elas têm na democracia e não pelo que fizeram na ditadura. Apoiei, como membro do Conselho de Defesa Nacional, a sua modernização e aperfeiçoamento tecnológico. Defendi mais recursos e melhores salários para os seus integrantes.  Acho que esta questão da tortura vai voltar no Brasil. E essa lamentável decisão do STF, com o voto espantoso para todos nós do ministro Eros Grau, ela um dia vai cair aqui no Brasil e o STF fará justiça. Isso não significa colocar ninguém na cadeia, nem perseguir generais que foram presidentes. Significa você ter o registro, na justiça, de que pessoas que cometeram barbáries possam ser julgadas pelo Estado de Direito. Apenas isso.