Arquivo para junho 2010

Jovens médicos formados pelo ProUni derrubam preconceitos e são motivo de orgulho

30/06/2010

do Blog do Planalto

Visivelmente emocionado com a presença de 218 formandos em medicina que estudaram com bolsas do ProUni, o presidente Lula afirmou estar diante da foto de sua vida, em cerimônia realizada nesta quarta-feira (30/6) em Brasília. Os jovens presentes, que se formaram superando preconceitos e todo tipo de obstáculo, são grande motivo de orgulho para qualquer governante, disse Lula durante o evento, que marcou o início do seminário Perspectivas Profissionais na Área de Saúde, realizada em Brasília.

Assista o vídeo da cerimônia no You Tube:

Muitos criticaram o ProUni, afirmando que o programa nivelaria por baixo a educação brasileira, num preconceito injustificável, criticou o presidente, lembrando que uma avaliação feita pelo Ministério da Educação comprovou que alunos do ProUni tinham desempenho superior a outros estudantes universitários em 15 áreas avaliadas. “Eles foram precocemente rejeitados por uma parte preconceituosa da elite brasileira”, criticou o presidente.

“Não sei se até o dia 1º de janeiro vamos ter outra fotografia mais bonita do que essa para justificar a nossa passagem pelo governo. Porque o Brasil historicamente foi governado e pensado para atender uma pequena parcela da sociedade. Dava-se de barato que uma parte da sociedade tinha direitos e que poderiam fazer curso de doutorado, de graduação e de mestrado, e outra parte que estava predestinada a terminar o ensino fundamental, com muito custo fazer o secundário, e muito mais custo ainda arrumar um emprego.”

Ouça aqui a íntegra do discurso:

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Um dos formandos presentes era Sara, do Pará, que vai ser formar médica no final do ano. O presidente contou aos presentes um pouco da história de Sara, que desde os três anos de idade queria ser médica e que enfrentou muitos problemas, financeiros e de saúde, para conseguir realizar seu sonho de infância. Lula elogiou a força de vontade de Sara e agradeceu suas palavras:

“Nós provamos que somos capazes, basta ter oportunidade. Agora eu quero retribuir o que o Brasil fez por mim”, disse ela.

O presidente Lula lembrou que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter uma universidade e teve vários presidentes que passaram seu mandato inteiro sem investir em uma única universidade — porque educação era considerado ‘gasto’ em vez de ‘investimento’, frisou Lula. Hoje, educação é prioridade de governo e assim foi possível chegar a números expressivos. “Em oito anos, eu, o Fernando Haddad (ministro da Educação) e o Zé Alencar (vice-presidente) já somos os que mais fizemos universidades federais neste País (ver aqui) “, lembrou o presidente, citando também o recorde de escolas técnicas criadas no Brasil durante o seu governo (ver aqui).

Isso tudo só aconteceu porque proibimos o uso da palavra gasto ao falar de educação. Dinheiro para educação deveria ser tratado como investimento, porque dá bom retorno ao País, estamos qualificando e preparando gente, para disponibilizar ao País inteligência, e não tem preço que pague isso.

As Políticas Culturais e o Bolsa Família: Sobre uma (breve) conversa com o Ministro Juca Ferreira

25/06/2010

por Giuseppe Cocco, publicado no Universidade Nômade

Na segunda feira, dia 31 de maio, fui participar de um encontro de intelectuais com Dilma – no Rio de Janeiro. Foi ótimo. Na saída, estava abraçando e parabenizando um dos organizadores (o professor Emir Sader) quando chegou perto de mim o Ministro da Cultura Juca Ferreira, que me disse logo, “escandalizado”: “você falou, logo você, que o Bolsa Família foi a maior política cultural do governo Lula ?! Com isso” continuou ele olhando para o chão, “você jogou tudo para baixo, rebaixou tudo ao mero economicismo: se o Presidente te escutasse, reduziria nosso orçamento”. Não tive tempo de argumentar nada, e ficou por isso mesmo.

Cocco: "o Bolsa Família é a maior política cultural e os pontos de cultura são a melhor distribuição de renda do governo Lula"

Com efeito, na semana anterior eu havia participado da primeira mesa plenária do VI ENECULT* cujo titulo era “As Políticas Culturais do Governo Lula”. Antes de mim o professor Renato Ortiz fez uma palestra sobre as transformações da cultura de massa e da cultura nacional diante dos desafios da globalização e o professor Albino Rubin uma explanação sobre as dinâmicas da produção cultural no Brasil. Talvez em função de uma outra atividade que estava programada para a noite (na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, em Cachoeira, com o jornalista Emiliano José), quando eu deveria falar das políticas sociais, decidi na hora abordar minha palestra com uma afirmação “forte”: de fato, eu disse sim que a maior política cultural do governo Lula era o Bolsa Família. Mas, dizer isso não significa “rebaixar” as políticas culturais. Muito pelo contrário (e é o que tentei explicar em minha palestra), trata-se de, em primeiro lugar, “culturalizar” as políticas de transferência de renda; e de, em segundo lugar, o que é ainda mais importante, colocar as políticas culturais (que o MinC dos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira implementaram com grande criatividade e determinação democrática, apesar dos recursos iniciais terem sido irrisórios) como cerne ou até modelo que qualifica as políticas sociais. Em outras palavras: dizer que as transferências de renda são políticas culturais significa afirmar que elas, qualificando as relações sociais, fomentam a criação. Ou seja as dinâmicas culturais dependem da expansão das políticas sociais (e não das “portas de saída”), em direção a outros valores, a um outro caminho de desenvolvimento: aquele que tem os pobres como sujeitos. Por sua vez, colocar as políticas culturais no cerne das políticas sociais significa dizer que o fomento público dos movimentos culturais (como no caso do Cultura Viva – Pontos de Cultura) tem como horizonte de sustentabilidade não apenas (o que já é importante) a complementação da “economia” cultural ou o “acesso” à cultura, mas a construção de uma “outra” cultura.

No ENECULT, no momento de introduzir minha fala, deixei bem claro que estava falando de cultura na definição que alguns antropólogos fazem ao mobilizar o relato de um etnógrafo sobre seus primeiros contatos com uma tribo indígena: “A maneira como eu não entedia (os indígenas) era diferente da maneira como eles não me entendiam”. Com efeito, parafraseando essa afirmação, podemos dizer que “a maneira como o Ministro (não) entendeu minha afirmação é diferente da maneira como eu (não) entendi seu escândalo”. A cultura da qual estamos falando é a própria relação social e sua dinâmica mais criativa e democrática: a alteridade e a diferença! Essa definição de cultura não se deixa encapsular na perspectiva identitária e ainda menos naquela da indústria cultural, ou como um especifico setor de atividade econômica (o “lazer” ou o turismo).

A dimensão relacional da cultura como terreno de produção da diferença nos permite apreender o debate sobre sua centralidade paradoxal no capitalismo contemporâneo e, com isso, as dimensões estratégicas (políticas e econômicas) das inovações introduzidas pela atual gestão do MinC. No capitalismo das redes e do conhecimento, a cultura não é mais um setor de atividade produtiva (a indústria cultural criticada pela escola de Frankfurt), nem uma atividade restrita à esfera da reprodução (a cultura como “lazer”, ao qual deveríamos ter acesso, ou como “educação”, à qual deveríamos ter direito). A cultura é hoje investida como relação, forma de vida. Ela é o principal terreno de produção do valor e, nessa exata medida, ela é o próprio terreno da produção da significação: world making, dizem até os economistas. Uma produção de “mundos” que vai muito além da fábrica. Mesmo quando o trabalho acontece no chão de fábrica, ele mobiliza as faculdades subjetivas do trabalhador, Marx dizia, o “trabalho imaterial”: intelectual, comunicativo, linguístico, afetivo. Dessas faculdades dependem os ganhos de produtividade. Isso porque o regime de acumulação do capitalismo cognitivo (ou da economia do conhecimento) no qual o neoliberalismo era a ideologia hegemônica (falo no passado porque a crise financeira já decretou a obsolescência deste modelo, embora seus fantasmas continuem nos assombrando, como hoje acontece na Europa) mobiliza o trabalho diretamente na sociedade: a tendência é separá-lo sistematicamente da relação (salarial) de emprego. Idealmente, a melhor relação de emprego é aquela que não acontece: o trabalho é realizado como prestação de serviço, em uma sequência interminável de fornecedores de fornecedores de fornecedores espalhados no território: o outsourcing(muitas vezes “global”), as redes de serviços e até o crowdsourcing, em particular nas grandes metrópoles. Quanto mais o trabalho se moderniza (e suas dimensões materiais dependem das imateriais), tanto mais o emprego é substituído pela empregabilidade e se torna precário, intermitente, desprotegido, informal. No fim de linha, o trabalhador ideal será aquele que se transforma – isso sim de maneira fictícia – em Pessoa Jurídica (persona ficta): bem nos termos das “Notas de Favor” (Notas Fiscais “compradas” junto a empresas especializadas nesse tipo de [não]-atividade), quando os trabalhadores da cultura e do terceiro setor, mais em geral, são obrigados a ter, eles mesmos, de resolver os termos (contratuais) de sua remuneração (vide o movimento Re-cultura).

Esse regime de acumulação é altamente inclusivo, mas uma inclusão que muda radicalmente de sinal: por um lado, ela não significa mais uma certa integração social (e acesso a um sistema de proteção: à inclusão no trabalho corresponde uma exclusão dos direitos); pelo outro, o próprio capitalismo perde as bases objetivas de mensuração do valor, posto que a produção acontece fora da relação de emprego, numa dinâmica de virtual autonomia, exatamente como nos “movimentos culturais” que os Pontos de Cultura do programa Cultura Viva tiveram a coragem de reconhecer.

Dito de outra forma, o capitalismo – precarizando e investindo um trabalho que coincide com as próprias redes sociais e técnicas – passa a explorar diretamente a vida inteira da população, ao mesmo tempo em que perde aquela base objetiva que lhe permitia legitimar-se (social e economicamente), por ser a condição necessária à produção de riqueza. A vida social é a nova fonte da riqueza e terreno de aposta do venture capital, capital de risco, risco paradoxal de uma vida que se torna potente e precária ao mesmo tempo.

A crise dos subprime (e agora do sistema europeu de welfare) é o fato dessa contradição: por um lado, o trabalhador deve não mais procurar um emprego, mas procurar manter-se empregável e por isso investir em seu “capital humano”: saúde, educação, telefonia, computação, TV a cabo e uma moradia onde possa fazer funcionar tudo isso. Pelo outro, a privatização dos serviços, o desmonte do sistema de proteção social e a precarização do emprego fazem com que os trabalhadores só consigam investir em seu “capital” (humano e/ou social, como diz o jargão) por meio do acesso a um crédito cuja expansão exponencial – a financeirização – dava a impressão de poder governar o descompasso: a crise financeira do capitalismo global nos mostra o impasse ao qual leva o paradoxo.

Quando as redes são a nova estrutura de produção (redes sociais, metropolitanas, de informação e comunicação) o tempo de vida se mistura ao tempo de trabalho: os preços e o lucro (a acumulação) não têm mais lastro no tempo de trabalho (excedente). O valor se torna uma determinação cada vez mais arbitrária (como um imposto) na captura das formas de vida, em um regime de acumulação que produz formas de vida (conhecimento) por meio de formas de vida (conhecimento). A cultura se encontra duplamente no cerne desse deslocamento: porque, quando é a vida como um todo que é investida (subsumida, diria Marx), é a própria dinâmica relacional da cultura que é o terreno da acumulação e também das lutas; e porque quando o valor perde sua métrica, a determinação dos preços se torna, simplesmente, arbitrária, quer dizer política: quanto vale um “pulso” de uma comunicação por telefone móvel? O que determina o preços dos bens culturais que hoje podem ser reproduzidos tendencialmente a custo zero e até sem suporte, diretamente nas redes? Não são as agências reguladoras (da telefonia, por exemplo) ou os produtos proprietários (copyright) que respondem. A realidade disso são as “Notas de Favor”, a pirataria e até (nas grandes metrópoles brasileiras) as “milícias”. O paradoxo contem uma nova e violenta contradição. A cultura é, ao mesmo tempo, o terreno de construção de uma nova métrica (de uma significação) para a economia e o trabalho como um todo, e nela encontramos os fenômenos mais brutais de precarização e perda de sentido. É nela que se produzem formas de vida por meio de formas de vida (construção de mundos) e, ao mesmo tempo, é nela que o mercado e a lógica do capital se afirmam como “perda de mundo”: a globalização na qual estamos é nossa fábrica, aquela que construímos e que, ao mesmo tempo, nos explora. A metáfora que a meu ver mais explicita este deslocamento é mesmo a da colméia: do trabalho da abelha (do pobre) reconhece-se apenas o que se traduz em produção de mel (ou seja, quando o pobre consegue ser abelha-operária, com emprego formal de tipo industrial); e não se reconhece o trabalho de polinização, ou seja, o trabalho da cultura como relação, intensidade de relações sociais de produção de mundos. O capital captura nossos excedentes de vida (nossa cultura!) e não paga, a não ser na forma das finanças, quer dizer da relação de crédito-débito, que pretendem substituir ao emprego e ao welfare (proteção social): transformando nossa vida em carteira de risco, bem como o próprio planeta.

O debate sobre a sustentabilidade dos Pontos de Cultura é emblemático: diz-se que eles ficam dependentes dos repasses de recursos públicos quando, na realidade, toda a produção cultural depende do recurso público (vide o escândalo da Lei Rouanet) e todo o sistema global do crédito está hoje “encostado” nos orçamentos estatais. O trabalho criativo e produtivo dos Pontos de Cultura, enquanto redes de singularidades que cooperam entre si se mantendo tais (mantendo-se “abelhas” singulares no processo de polinização) precisa ser reconhecido por uma Renda Universal (inicialmente atrelada a essa mobilização dos mais pobres). Da mesma maneira, a distribuição de renda para os mais pobres deve ser reconhecida como terreno de mobilização produtiva e cultural, que vai muito além do “combate darwinista à pobreza”.

Assim, minha frase inicial, “o Bolsa Família é a maior política cultural do governo Lula” pode ser completada e complementada com a afirmação de que “os pontos de cultura são a melhor distribuição de renda do governo Lula”.

* Na UFBa, em Salvador, 25 de maio de 2010, de cuja abertura oficial participou inclusive o Ministro da Cultura.

Brasil x Argentina

19/06/2010

(Para não dizerem que não falamos da Copa)

por Vinícius Wu

Nosso blog normalmente trata de política. Mas como não gostamos muito da idéia de ficar fora de moda, tratemos um pouco de futebol. Que ninguém espere uma análise dos esquemas táticos das principais seleções, tampouco previsões sobre o time campeão e os artilheiros da Copa. Mas o tema não será enfadonho.

Afinal, sabemos que em plena Copa do Mundo, não é recomendável esperar que alguém vá ocupar-se da leitura de um artigo chato quando poderia acompanhar mais um “jogo históóóórico” (locutores adoram isto) como, por exemplo, Eslováquia e Nova Zelândia (sic). Não pretendemos, portanto, ocupar o precioso tempo do torcedor com bobagens.

Falemos, então, do assunto preferido da grande mídia por estes dias: a rivalidade entre Brasil e Argentina. Vamos tratar, especialmente, de Dunga e Maradona. E antes que algum chauvinista de botequim acuse-me de “antipatriota”, lembro que essa história de hostilizar argentino é enredo fora de moda pra patuscada de fim de semana, que só interessa a fabricante de cerveja e refrigerante.

Torcer pelo Brasil é natural, e não deixo de fazê-lo, mas não ao estilo Galvão Bueno que, como bem alertou o amigo Migliaccio, parece acreditar que temos um quilo de salsicha recheando nossa caixa craniana. Torcer como sugere o Galvão é impensável para quem possui, ao menos, um punhado de neurônios

Bem, vamos então aos nossos dois técnicos. Ambos foram jogadores e campeões mundiais. Os dois são técnicos estreantes nesta copa. Um e outro se notabilizam pela prepotência e pela língua afiada. Mas as semelhanças param por aí.

Afinal, um fez do futebol espetáculo e da bola um instrumento de sua arte. O outro fez do futebol seu ofício e da bola sua inimiga.

Um é recebido pelo presidente mais popular das Américas – e talvez do mundo – e se recusa a tirar a mão do bolso para cumprimentá-lo. Outro recebe as mães da Praça de Maio, diz que lhes dedicará o título e adere à campanha para que estas recebam o Nobel da Paz – num belo gesto desprezado pela maior parte de nossa grande mídia.

Não quero dizer com isso que um é “bom” e de esquerda e outro “mau” e de direita. Provavelmente, ambos nem saibam direito o que é direita e esquerda. Menos ainda espero de Dunga o apoio à Lula. Mas estamos tratando do Presidente de uma República que se mobiliza pra torcer por sua seleção e assim cria as condições para que se paguem os bons salários da nossa brilhante comissão técnica. Além disto, espera-se, de qualquer um, ao menos um gesto de boa educação numa situação como esta.

Ao definir os nomes de sua seleção Maradona optou pelo talento, Dunga preferiu a obediência.

Dunga é fruto do controle absoluto e lastimável da CBF por seu eterno presidente-proprietário que lhe ofereceu a Copa como estágio. Maradona é novato em Copas, mas já havia dirigido um dos maiores clubes argentinos. Além disto, entende e, principalmente, gosta de futebol.

Vamos parar. Não é boa essa comparação para o Brasil. Torcerei sim pela nossa seleção, por vários motivos. A começar pelo fato de ter um bom motivo para encontrar e tomar uma com os amigos nos dias de jogo do Brasil. Ver as pessoas com as quais convivo felizes, amar o meu país e nosso povo também são outros bons motivos.

Mas não me peçam para acreditar que Dunga é arrogante por que é “profissional” e “exigente” e que Maradona é prepotente por que é argentino. Também não quero detestar a Argentina, declarar guerra à Bolívia e oprimir o Paraguai. E fico por aqui antes que digam que sou eu quem está misturando política e futebol.

O Brasil de John Gerassi

15/06/2010

por Vinícius Wu

“(…) o Brasil não pode ser ignorado. Quando ele sonha, sacode Washington. Quando se move, desloca o continente. E quando explodir, abalará o mundo. O Brasil tem a capacidade, o espaço territorial, o intelecto e a força necessária para se tornar uma potência mundial. Somente ele pode tirar a América Latina de sua paciente e desesperançada letargia, colocando-a na estrada do progresso e da justiça. Que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, virá a desempenhar esse papel ninguém duvida.” John Gerassi

Não, caro leitor, John Gerassi não é nenhum entusiasta da política externa do governo Lula. Nem tampouco se trata de algum grandiloqüente e otimista servidor do Itamaraty. O raciocínio sequer tem a ver com o novo papel desempenhado pelo Brasil na atual ordem global.   Na verdade, trata-se de uma conclusão feita no ano de 1964 por um reconhecido estudioso da realidade latino-americana.

Os mais antigos talvez se lembrem com mais facilidade de John Gerassi e de sua obra mais conhecida no Brasil, “A invasão da América Latina”, lançada em nosso país no ano de 1964 e de onde extraímos o trecho citado acima. Gerassi foi um eminente jornalista norte-americano, redator da revista TIME e, posteriormente, encarregado de assuntos latino-americanos da NEWSWEEK. O referido livro causou indignação nos EUA ao denunciar diversas manobras políticas, sabotagens e golpes patrocinados pela CIA e pelo Pentágono na América Latina.

Gerassi conheceu profundamente a realidade latino-americana. No Brasil acompanhou de perto, nos anos que antecederam o golpe civil-militar de 1964, a experiência desenvolvida por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, personalidade política latino-americana que lhe despertou profunda admiração.

Reler Gerassi talvez nos ajude a compreender melhor o Brasil de hoje. E, para muitos, talvez seja um caminho para o reconhecimento da importância estratégica dos movimentos realizados pelo governo brasileiro no âmbito de sua política internacional. Para aqueles que encontram imensa dificuldade em superar a “síndrome de vira-latas”, que tanto apequena as pretensões de alguns articulistas da grande mídia, esta talvez seja uma leitura necessária e (por que não?) reveladora.

"Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século."

A forma como diversos setores da grande mídia trataram o acordo obtido pela diplomacia brasileira no Irã é paradigmática. Foi preciso que o jornal britânico Financial Times saísse em defesa da ação do governo brasileiro para que alguns veículos transitassem para uma postura “tolerante” em relação aos movimentos do Itamaraty. Uma desmedida vocação para a subserviência aflorou com uma intensidade poucas vezes vista em nossa história recente. Os mesmos que avocam a defesa da “soberania nacional” e dos “interesses do país” em relação a temas que envolvem países como Bolívia ou Paraguai comportaram-se como verdadeiros serviçais, em pânico por contrariarmos os interesses do grande irmão do norte.

Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século.

Mas Gerassi não foi o único “brasilianista” a prever uma posição destacada do país no cenário internacional. Poderíamos encontrar ecos das teses de Gerassi em diversos analistas de política internacional nos dias de hoje e até mesmo em algumas vozes do mercado.

Para Martin Sorrel, por exemplo, o Brasil é a “marca mais charmosa a ser vendida ao redor do planeta”. Ele associa explicitamente o sucesso brasileiro no exterior ao desempenho do Presidente Lula. Sorrel é considerado por muitos o homem mais importante da publicidade mundial e preside o maior conglomerado de publicidade do planeta.

As críticas à política externa do atual governo partem de um conjunto de “especialistas” que, sistematicamente, reservam ouvidos moucos a inúmeras análises elogiosas feitas por intelectuais absolutamente insuspeitos mundo afora. É o caso das teses defendidas recentemente por ninguém menos do que Richard Haass, ex-diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado dos EUA. Ao refletir sobre o papel dos emergentes na nova ordem global, Haass alerta para o fato de que “o que torna um país grande não é o tamanho de seu território, de sua população, de seu Exército ou de sua economia, mas a maneira como ele usa seu poder para moldar o mundo além de suas fronteiras”. Nesta perspectiva, a ação brasileira no Irã não é insensata ou pretensiosa, mas estratégica.

Ao ler as palavras de Gerassi reproduzidas no início deste artigo soa tentador lançar mão de um surrado lugar-comum e caracterizá-las como “proféticas”. Prefiro acreditar que Gerassi apenas olhou para a América Latina e para o Brasil despido de preconceitos e superstições. Refletiu sobre seu futuro com acuidade. E com a serenidade de um grande estrategista antecipou tendências e projetou cenários. Sem servilismo ou mistificações.

A revolução dos pobres

09/06/2010

O Bolsa Família é distribuição de renda sem submissão às leis do mercado, e é condição, portanto, para a transformação dos valores sociais e políticos.

por Emiliano José

Encontrei-me com Giuseppe Cocco no lançamento de um livro em que os autores eram Boaventura dos Santos e Tarso Genro, além dele próprio. Os três estavam à mesa, e o encontro se deu no Teatro Vila Velha, velho espaço da resistência e criatividade cultural de Salvador. Não me lembro a data exata, Tarso Genro ainda era ministro. Pela primeira vez, ouvi uma abordagem original sobre o Bolsa Família, esse extraordinário programa executado pelo governo Lula, hoje famoso mundialmente por suas espantosas conseqüências positivas para os pobres do Brasil.

Boaventura dos Santos, um dos mais importantes intelectuais do mundo atualmente, a par de fazer uma análise muito positiva sobre o governo, arriscou-se a dizer que ele lamentava apenas que houvesse programas de natureza assistencialista no governo Lula, naturalmente querendo referir-se, entre outros, ao Bolsa Família. Giuseppe Cocco não contou conversa e não revelou nenhum temor reverencial diante do monstro sagrado Boaventura dos Santos. Diria que desmontou os argumentos do intelectual português, subvertendo os termos da análise. O buraco era mais embaixo. Vou tentar interpretar a sua fala.

E o faço porque ela foi reavivada no dia 25 de maio, na histórica cidade de Cachoeira, a 100 quilômetros de Salvador, e histórica porque Cachoeira antecipou a luta pela independência em junho de 1822. Foi reavivada na conferência feita por Giuseppe Cocco sob o título As políticas sociais do governo Lula para algumas centenas de trabalhadores, lideranças religiosas, muitos estudantes e professores da Universidade Federal do Recôncavo, vindos de Cruz das Almas, Valença, Conceição do Jacuípe, Santo Amaro, Muritiba, Maragogipe, São Félix, Santo Antônio de Jesus, além naturalmente de Cachoeira, municípios do Recôncavo Baiano.

A conferência e o debate foram promovidos pelo Núcleo de Comunicação e Política, da Universidade Federal da Bahia, que lidero ao lado dos professores Gilberto Wildberger e João Carlos Salles, ambos da UFBA. Ela integra um ciclo denominado A política e a vida na esquina do mundo, que já trouxe a Salvador o jornalista Mino Carta para a conferência O partido político da mídia. A Universidade Federal do Recôncavo, co-patrocinadora da conferência de Giuseppe Cocco, tem sacudido a região positivamente, seja do ponto de vista das condições materiais, seja principalmente da oxigenação do pensamento, do estímulo ao debate. E a presença de Cocco foi um desses momentos altos de reflexão, trazendo um pensamento original a toda a região.

Voltemos, então, à fala de Cocco, e creio que ele, um dos principais discípulos de Antonio Negri, merecia muito mais destaque em nossa mídia. Mas, nossa mídia é o que é, e a fala dele vai na contramão de tudo que ela pensa sobre o governo Lula. Ele disse lá, no lançamento do livro a que me referi no início desse texto, e cá, no dia 25 de maio, que a política dos pobres dos dois governos Lula desnorteia a oposição conservadora – ou a mídia conservadora, que é a mesma coisa – e a extrema-esquerda, e que curiosamente as duas convergem nas críticas à política social do governo Lula, e particularmente ao Bolsa Família. É estranho, mas compreensível que direita e extrema-esquerda se encontrem, mas tem sido assim também no Congresso Nacional.

Antecipo que posso equivocar-me na interpretação do pensamento dele porque não estou sendo literal. Tento, no entanto, ser o mais fiel possível. Eu o ouvi agora e antes, em duas ocasiões. Na contestação a Boaventura, recordo-me, ele surpreendeu a todos ao conferir ao programa Bolsa Família uma natureza revolucionária. Lá como cá, ele afirma que o Bolsa Família tem o mérito de não se render à lógica econômica e de se inscrever positivamente a favor dos pobres, numa conjuntura em que o capital não está mais limitado a um determinado país ou região e nem se baseia mais na industrialização como motor do desenvolvimento. O capitalismo de hoje está em todo lugar e funciona em rede, por esquinas como ele mesmo diz, “juntando as esquinas e mantendo as suas especificidades – digo isso para jogar um pouco com o tema desses colóquios ricos que vocês estão fazendo”.

O capitalismo neoliberal, globalizado e organizado em rede, trabalha pela exclusão sistemática do acesso aos direitos e pela redução dos sistemas de proteção social. Desse ângulo, é excludente. Isso, no entanto, é apenas um lado das transformações do capitalismo nessa quadra do mundo. E aí vem outra surpresa da análise dele: esse novo capitalismo é altamente inclusivo. Mas, anotem, inclusivo no sentido de incluir todo mundo dentro do processo de exploração, desde algumas centenas de milhões de chineses até os 200 milhões de brasileiros. Anteriormente, ser incluído era estar integrado ao capitalismo industrial e ao que a ele se ligava, era o capitalismo do mundo formal, do emprego formal. O resto, ficava excluído.

O capitalismo contemporâneo funciona de forma diferente, muito diferente, incluindo todo mundo num mesmo sistema, inclui cada esquina na sua particularidade, “conectando essas esquinas em rede”, como disse em Cachoeira. Ele usou o exemplo, que pode ser entendido como uma grande metáfora, ou como expressão dessa nova e estonteante realidade, que é o da telefonia.

Antes, sob o capitalismo industrial ou planejado, era a telefonia fixa, direito adquirido apenas para quem tinha um emprego. “Se eu tinha uma inserção na relação salarial era porque eu tinha um emprego, e assim era considerado cidadão, por isso eu tinha um telefone fixo”. Se não tivesse trabalho assalariado, não tinha o direito do telefone fixo.

O telefone celular, como expressão das mudanças do capitalismo, como expressão do regime de acumulação, “cabe no bolso de qualquer esquina, construindo e se constituindo como base para uma rede”. Ele inclui os excluídos enquanto tais.

E de que modo inclui, com que novas características? O capitalismo contemporâneo explora não só o nosso tempo de trabalho quando estamos dentro da fábrica ou submetido a qualquer emprego. Ele explora todo o nosso tempo de vida, exatamente como no modelo da telefonia celular, que incluiu a todos e que subtraiu a possibilidade da separação entre o tempo do trabalho e o tempo livre. Não há mais tempo livre. O novo capitalismo explora a vida de todos o tempo todo, junta todos num mesmo saco.

“O que é explorado é a nossa própria relação social, é a nossa própria forma de vida”. Ainda permanecendo na metáfora do celular, ele afirma que, nesse caso, o que é explorado quando se cobra o uso do telefone celular é o pulso, é o minuto do uso pulso. Mas o que é esse minuto? É o que decidirmos que seja. “É o que usamos para viver, para trabalhar, para circular, pra ter afetos, para organizar a vida”. Em síntese, o que é explorada é a nossa vida social, e não a nossa vida individual simplesmente. Vivemos sob um capitalismo que explora toda nossa vida em sua diversidade, na sua multiplicidade.

Num capitalismo dessa natureza, as políticas sociais não podem mais ser vistas como compensação em relação aos problemas de extrema pobreza, nem de falta do crescimento econômico, mas elas, as políticas sociais do governo Lula, significam o reconhecimento das dimensões produtivas da vida, o reconhecimento de que todos são produtivos, mesmo os que não estão empregados formalmente.

Eu volto agora à contestação que Cocco fez a Boaventura. Quem disse que o capitalismo pode ensejar o pleno emprego? Quem disse que ainda vige o capitalismo industrial, com seu sonho de tornar a todos um operário ou tornar todos empregados em torno da lógica fabril?

Foto: Felipe GesteiraO Bolsa Família, ao reconhecer o capitalismo em rede, ao localizar a multidão de pobres que se integra a ele, e que não se integrará nos termos formais anteriores, persegue uma lógica anticapitalista, não se subordina à lógica do mercado, não se atém à idéia de que o mercado irá absorver todos no emprego formal, por mais crescimento econômico que o país experimente.

Por isso, estava certo Lula quando disse que longe de diminuir tinha que aumentar os recursos para o Bolsa Família. E me lembro também de Patrus Ananias, numa das ocasiões em que veio à Bahia, quando disse que não se tratava de pensar na “porta de saída”, como afirmam alguns destacados membros de nossa burguesia, de nossa mídia, de nossa oposição desnorteada, mas de pensar em abrir mais e mais as portas de entrada para os pobres.

O Bolsa Família é distribuição de renda sem submissão às leis do mercado, e é condição, portanto, para a transformação dos valores sociais e políticos, e também para a transformação da política econômica, para provocar outra lógica na política econômica.

“É necessariamente uma política dos pobres pelos pobres que, necessariamente, é a política da diferença”. Por isso, talvez, é que Cocco, numa palestra que fez pela manhã no mesmo dia 25, no auditório da Reitoria da Universidade Federal da Bahia, tenha dito que a verdadeira política cultural do governo Lula era o Bolsa Família que, com a distribuição de renda, reconhece a dimensão produtiva da vida, transforma o conceito de cidadania e, com isso, o próprio conceito de cultura “na medida em que a cidadania não é mais, e não será mais, a conseqüência do mercado, nem da recuperação do processo de industrialização anterior”.

A cidadania será a condição, o ponto de partida para o desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, outro desenvolvimento, que não precisa ser mais capitalista, que caminha para a reformulação do próprio conceito de valor. Como podem ver, é muita provocação num único autor, e que por isso merece ser lido e estudado.