Por que Serra perdeu o debate na Band

Publicado 06/08/2010 por leituraglobal
Categorias: Análise da semana

por Vinicius Wu

Debate entre candidatos não é tourada. Não cai um boi morto no chão ao final. É sempre difícil avaliar o resultado de um debate. Cada lado sai em defesa de seu candidato e a repercussão na mídia é disputada nos dias posteriores. Mas há sim uma questão relevante a ser considerada. Trata-se do papel que o debate ocupa na estratégia de um determinado candidato. Serra apostou, sim, nos debates na TV. Era sua “cartada” decisiva contra uma candidata “inexperiente”. Se considerarmos este fato, podemos sim afirmar que Serra foi quem mais perdeu com o debate.

Como se insere na estratégia de Dilma os debates na TV? Bem, não é preciso muito esforço para percebermos que os debates não estão no centro de sua estratégia. Explorar o sucesso dos dois governos Lula, ressaltar o papel que Dilma desempenhou na gestão das principais políticas de governo etc. tem um peso muito mais destacado no conceito de sua campanha, evidentemente. Para Dilma, bastava ir ao debate e “empatar” o jogo. Ainda mais agora, após a divulgação da pesquisa CNT/Sensus, onde a candidata aparece com dez pontos de vantagem sobre Serra.

Serra, pelo contrário, desde o início, apostou nos debates. Não sou eu quem está afirmando isto. Basta olharmos as dezenas de artigos dos colunistas simpáticos ao PSDB nos últimos meses. Basta revisitarmos as inúmeras declarações dos dirigentes da campanha tucana e do próprio serra. Criaram uma enorme expectativa em torno da esperança de verem Serra surrar Dilma nos debates. Definitivamente, não foi isto o que ocorreu.

Dilma estava nervosa? Bom, tirando o Plínio, todos estavam nervosos nos primeiros blocos. Dilma poderia ter se saído melhor? Certamente, até pela qualidade que possui. Mas a vitoria acachapante de Serra não veio e o problema é que ela estava no centro de sua estratégia.

E ainda tinha semifinal da Libertadores no meio do caminho…

O eleitorado brasileiro amadureceu o suficiente para não definir seu voto – e seu futuro – baseado em truques de debate ou produção de TV. Debates e programas de TV são importantes, certamente. Mas não parece que as próximas eleições serão decididas por nenhuma estratégia de marketing. O povo brasileiro vai julgar não apenas os últimos oito anos. Julgará os últimos dezesseis e lançará uma aposta para os próximos oito.

Serra errou muitas vezes até aqui em sua campanha. Errou novamente ao anunciar, antecipadamente, sua vitória “acachapante” nos debates da TV. Ao confiar tanto em sua performance e experiência em eleições, Serra abriu espaço para a frustração de seus correligionários diante do resultado do debate.

Não foi o debate propriamente o que definiu a derrota de Serra ontem. Foi a orientação estratégica de sua campanha, que criou tanta expectativa em torno de sua suposta “superioridade” nos debates.

Sem maquiagem, vocalista do Teatro Mágico fala sobre política e cultura

Publicado 13/07/2010 por leituraglobal
Categorias: Entrevista

do blog da Macro Osasco

Fernando Anitelli declara sua preferência por Dilma e Mercadante, diz que apóia o software livre e conta sobre as estratégias do grupo para divulgação das músicas na ‘era do download’

Encontramos o vocalista e músico da trupe O Teatro Mágico, Fernando Anitelli, 37, no escritório da trupe localizado na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Sem nariz vermelho nem maquiagem, o palhaço- poeta recebeu a equipe do Jornal PT- Macro Osasco em Contato para uma entrevista recheada de humor, interatividade e carisma que durou quase duas horas.

O Teatro Mágico entra em seu sétimo ano de estrada, com repertório que ‘mistura numa coisa só’ a música, a poesia, o teatro, o circo e a discotecagem, em meio a passos de dança e acrobacias. Embalado por ritmos que variam desde a suavidade do violino até as forte batidas de instrumentos de percussão, o espetáculo aproxima o público do sonho e da poesia.

Os artistas criam ferramentas que levam seus fãs a participarem através da troca de palavras, poesias e suspiros jogados ao ar. Fernando Anitelli declama um trecho de sua poesia, em tom de jogral, só dando continuidade após o público repetir tudo que foi dito. Idealizador do projeto, Anitelli se inspirou no romance alemão “O lobo da Estepe” (1927), do escritor alemão Hermann Hesse, naturalizado suíço para a criação da trupe.

Na entrevista abaixo, o artista falou sobre o lançamento do segundo DVD e o terceiro CD, que completa a trilogia do grupo. Também relatou sobre a luta do Movimento Música para Baixar, arte independente, software livre e direito autoral. Não se limitou ao campo da cultura, mostrou seu posicionamento político, sua opinião sobre o governo Lula e seu apoio à eleição de Dilma para presidente e Mercadante para governador em São Paulo.

Macro Osasco em Contato: Qual a relação que o Teatro Mágico tem com atual momento político? Fazendo um balanço com o último governo FHC e agora com o Lula, na questão cultural, o que representa o atual momento político?
Fernando Anitelli: O Teatro Mágico sempre teve preocupação muito grande em não deixar o projeto jamais parecer uma coisa colorida e saltitante, algo simplesmente pra entreter.
Eu sempre que escrevo uma música, uma letra, me preocupando com aquela última frasezinha – “moral da história”. O porquê e para quem eu estou fazendo tudo aquilo. Com o que a gente quer se envolver. Não tinha como ser diferente. O Teatro mágico sempre se envolveu com as questões pertinentes com o atual momento político, com o que está inserido no nosso contexto.

Macro Osasco em Contato: E com o Governo Lula?
Fernando Anitelli: O governo Lula nesses últimos anos tem dado espaço para o diálogo, que é uma coisa que a gente nunca teve antes, possibilidade de dialogar.

Macro Osasco em Contato: Como é ser músico hoje em dia? E como você avalia os espaços concedidos a artistas pelos meios de comunicação?
Fernando Anitelli: Milhões de músicos no país querem ter um espaçozinho e ficam clamando pelo bom humor do dono da rádio, ou do amigo do vizinho da tia do primo do conhecido do amigo da faculdade que trabalha.
Putz, rádio e Tv são uma concessão. O Estado fornece isso para alguém administrar publicamente, democraticamente a comunicação para o público. Só que não é isso que acontece. Não tinha como o Teatro Mágico ficar indiferente, todas essas questões são cabíveis de se colocar em cima de um palco, de conversar com o público.

Macro Osasco em Contato: Comente exemplos de benefícios conquistados no âmbito cultural.
Fernando Anitelli: Os pontos de cultura foram tão bem pensados… A questão do Vídeo, da música, do texto e da foto ao alcance de locais mais periféricos.
Se eu não me engano, Osasco e Salvador são as cidades que têm mais pontos de cultura. São nove pontos de cultura em cada região.

Macro Osasco em Contato: Existe mobilização para conseguir isso?
Fernando Anitelli: Não se faz uma revolução só pela internet. É preciso estar próximo, dialogar, sentir o cheiro do seu companheiro ou companheira. Temos um governo interessado em discutir o direito autoral, dando espaço para pontos de cultura, para o diálogo, para a realização de eventos e festivais, um governo que é preocupado com o plano nacional da banda larga. Agora, as pessoas têm um universo de bibliotecas infinitas, que o ser humano nunca teve acesso antes. Isso é essencial. Pessoas de mente aberta dispostas a trabalhar. Um governo voltado para a sociedade, disposto a distribuir a informação, capaz de fazer essa informação se cruzar, se compartilhar, se conjugar. Tudo isso aí para mim está envolvido nesse governo atual.

Macro Osasco em Contato: Movimento Música para Baixar, como você vê isso? Como é essa articulação? Qual é a forma de diálogo do Teatro Mágico com os outros movimentos sociais?
Fernando Anitelli: O movimento música para baixar, assim como qualquer movimento que a gente possa fazer comparação, surge pela necessidade de mudar esse marasmo cultural nosso. Colocamos até a batucada da Marcha Mundial das Mulheres em cima do palco, para fazer um som com a gente. Chamamos o Pedro Munhoz, que é envolvido com o (Movimentos dos trabalhadores rurais sem terra) MST, o Gog, do movimento Hip hop.Qualquer movimento acaba no palco. A questão feminista, da homossexualidade, do movimento negro, do meio ambiente, tudo se encaixa lá em cima. E o Movimento Música par Baixar envolve essas discussões todas.

Em relação ao direito autoral, em relação ao Jabá – que é crime – em relação ao acesso livre aos bens culturais. Como você vai falar de um movimento do povo como o negro, sem falar da música negra e sem falar do acesso que as pessoas têm a essas músicas?
Não tem como ficarmos de fora. É fundamental entender que o Movimento Música pra Baixar faz ponte com esses outros movimentos, não somente pra potencializar os outros, mas que os outros também potencializam o nosso e a gente junta tudo numa coisa só, com esse propósito de se melhorar, um ajuda ao outro.

Macro Osasco em Contato: Eleições 2010. Qual foi a repercussão que o grupo sentiu ao colocar o apoio a Dilma Roussef no twitter do Teatro Mágico?
Fernando Anitelli: Foi muito boa, tranquila. Eu tenho uma visão já conhecida, bem progressista, de esquerda. No meu ponto de vista, a Dilma é a pessoa que melhor se enquadra nesse momento, para dar continuidade pra esse motor que foi colocado, que o governo Lula conseguiu fazer dialogando, fazendo as modificações coerentes. Governar um país, fazer esse país chegar como chegou lá fora, ter tentáculos pra conseguir caminhar e se organizar.
A estrutura que o governo Lula já conseguiu colocar, só a Dilma é capaz de continuar, ela já esta inserida nisso.

Macro Osasco em Contato: É consenso de o grupo todo apoiar a Dilma e o PT?
Fernando Anitelli: O que a gente não vai deixar é ninguém [do grupo] apoiar o Serra. “Serra não!,Não me venha falar de Serra”. O Teatro Mágico tem uma diversificação política dentro dele, mas sempre para a esquerda.
Quem não pensa assim, não está de acordo com a nossa direção, com a nossa meta, inclusive com a nossa meta artístico-política. Mesmo assim continuamos caminhando. Temos a posição anti-Serra enquanto projeto. Até porque ele boicota há três anos, politicamente, a participação do Teatro Mágico na virada cultural. É coisa da Secretaria de Cultura pedir e eles boicotarem mesmo.

Macro Osasco em Contato: Como está o grupo hoje?
Fernando Anitelli: Em uma das melhores fases. Estamos conseguindo de maneira livre e corajosa invadindo os meios de mídia, de massa. Eles estão tendo que engolir a gente, não tem como não falar da gente. Estamos ocupando um espaço que já era nosso.

Macro Osasco em Contato: Como você avalia a cultura nacional voltada para a grande massa?
Fernando Anitelli: A cultura nacional não pode ficar fadada a conchavos dentro de escritórios, decidindo o que é musica boa ou ruim. Uma música ruim tocada mil vezes e vira um sucesso. [Nos meios de comunicação] Tem que ter a participação de todo mundo.

Macro Osasco em Contato: Qual a relação do grupo com o público? Quais os planos para o futuro?
Fernando Anitelli: Tornamos-nos cada vez mais acessíveis para todo mundo. Estamos aí com novos aparelhos, novos músicos. Dia 16 de julho tem lançamento do DVD do 2º ato no Rio de Janeiro – Fundação Progresso e em São Paulo no dia 18 de Julho na Cardeal Arco Verde – Carioca Club.
No segundo semestre a gente grava o 3º Cd, que será lançado no ano que vem, depois gravamos o DVD e findamos nesse primeiro momento nossa idéia de trilogia.

Macro Osasco em Contato: A política também estará inserida nesses trabalhos? Qual a preocupação social do trabalho de vocês? Quais questões vocês querem passar para o público?
Fernando Anitelli: Questões sobre ética, política, religião, feminismo, meio ambiente, comunicação, trabalho. Tudo isso junto com brasilidade, brincadeiras e poesias, nessa experimentação que a gente não para de fazer nunca. Sempre tentando melhorar, amadurecer. Então, é nesse momento que o Teatro Mágico está sempre experimentando. Também quero fazer outros trabalhos, além de ser um palhaço. Temos que nos dar essa possibilidade de experimentar outros projetos. Para que possamos trabalhar e se aprender com o outro.

Macro Osasco em Contato: Como você vê esses novos festivais culturais que envolvem debates? Usando como exemplo o Festival da Juventude em Fortaleza.
Fernando Anitelli: Eu sempre vejo com bons olhos esses festivais. Com debates, cultura, juventude, artistas nacionais com expressão progressistas, pensantes que promovem o debate. Os artistas também precisam se envolver com esse encontro no geral.

Macro Osasco em Contato: A candidatura do Mercadante. Como você enxerga a política e a questão cultural aqui na região metropolitana de São Paulo?
Fernando Anitelli: O Mercadante em São Paulo é fundamental. Por estarmos a muito tempo na mão do PSDB, muitas coisas não caminharam. A internet livre e o diálogo são coisas que culturalmente não caminharam. Essa possibilidade toda é o que deslumbramos com um possível governo do Mercadante, aliados a um governo federal que possa estar somando.
O Mercadante é capaz de cuidar de São Paulo de uma maneira muito criativa e bem livre. É assim, eu imagino um novo momento com o Mercadante.
A gente precisa se envolver muito mais. É preciso mais políticas culturais dentro das escolas. Agora foi aprovado pelo Ministério da Cultura que música também seja uma das matérias dentro da sala de aula. Você vai poder trabalhar com o lúdico e o pensar, então pode contar com a cidade de Osasco. Tivemos uma conversa com o Prefeito Emidio pedindo políticas públicas e deixando o grupo à disposição para cooperar.

Macro Osasco em Contato: Quer saber mais sobre a trupe?
Acesse: www.oteatromagico.mus.br ou leia na edição de julho no jornal da Macro Osasco.

¿Por qué la tolerancia es una palabra fea?

Publicado 07/07/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

por Juan Aria, publicado no jornal El País em 6/7/2010

Zapeaba hace unos días en la televisión cuando me encontré con una entrevista a Hussein, el fallecido rey de Jordania. De repente le escuché una frase que me dejó perplejo por unos segundos: “Tolerancia es una palabra fea”, dijo. En su opinión, con el diferente, con el emigrante, con el que consideramos de otra cultura no deberíamos usar la palabra “tolerancia”, sino “aceptación”.

Me quedé pensando: ¿pero no es tolerancia lo que pedimos, en defensa de los que no comulgan con nosotros? ¿Cómo puede ser fea una palabra con la que hoy sueñan todos los que defienden los derechos humanos, la libertad de credos y de culturas? ¿Es que no son entonces intolerantes los que rechazan a los que no piensan o no rezan o no visten o no cantan como nosotros o como a nosotros nos gustaría que lo hicieran? ¿No proclaman la tolerancia aquellos que defienden el derecho de todos a vivir como mejor les plazca mientras respeten a los demás?

Afirmar que la palabra tolerancia es fea, poco evangélica, demasiado raquítica, puede parecer una provocación. A mí me lo pareció en un primer momento, escuchando al pacífico rey de Jordania. Me fui, por ello, a consultar el Diccionario de la Real Academia Española donde el verbo tolerar, del latín, tolerare, se define así: “Sufrir, llevar con paciencia. Soportar algo que no se tiene por lícito, sin aprobarlo expresamente. Resistir, soportar”.

Empecé a pensar que quizás tenga razón Hussein bin Talal, porque soportar, sufrir, llevar con paciencia, que alguien profese una fe diferente de la mía, o que piense de otro modo en política de lo que a mí me guste, o que se pasee, si así le gusta, en traje de baño por la calle, o con la cara cubierta por el burka, es bien poco. No es así como se puede crear una paz estable, una convivencia en alegría. No basta con soportarlo, con sufrirlo, con tolerarlo. Limitarse a “soportar algo que no se tiene por lícito”, no va a evitar el choque de civilizaciones o la guerra de religiones. De soportar a prohibir hay un paso.

La mejor forma de convivir codo a codo con los que consideramos diferentes -¿ellos no nos considerarán también a nosotros diferentes?- más que tolerarlos es aceptarlos. La diferencia es enorme. El mismo Diccionario de la Lengua define el verbo aceptar como “aprobar, dar por bueno”, algo que “merece aplauso”.

Entendida así la famosa tolerancia que consideramos el sumo de nuestra generosidad con el distinto, las cosas cambian radicalmente. Si doy por bueno y hasta aplaudo la fe del otro aunque sea diferente de la mía -¿por qué tendría que ser peor?- no hay ya espacio para la contienda, para la reducción del diferente al que, simplemente “sufro con paciencia”. Con la aceptación de aceptar, en vez de tolerar, puedo incluso servirme del diferente para enriquecerme, porque puede que hasta descubra que lo que hace, piensa o cree es mejor o que por lo menos complementa lo que yo creo, hago o pienso.

Hay cristianos -recordemos al filósofo marxista Roger Garaudy- que en un cierto punto de su vida consideraron que la fe del Islam era mejor que la suya y la abrazaron.

Hay católicos que se han sentido atraídos por el budismo o por el judaísmo. Hay marxistas que se han convertido a los valores democráticos y capitalistas duros que se han pasado a las filas de la socialdemocracia.

Si acepto, es decir, si apruebo y hasta aplaudo al diferente sencillamente porque supone una riqueza para la sociedad, doy un paso adelante hacia la comprensión y la apreciación de lo que yo no tengo o soy, pero que tiene valor en sí mismo. Es bajo esta dinámica que las guerras pueden comenzar a ser inútiles; que los pueblos pueden llegar a complementarse en vez de antagonizarse. Pueden enriquecerse con sus diferencias no ya toleradas sino comprendidas y aplaudidas porque nos complementan.

Todo el que haya viajado a países de culturas y credos diferentes de los propios habrá podido observar -si viaja sin prejuicios- que los encuentros con lo diferente acaban enriqueciéndole, que se admira ante lo que desconocía y que quizás ni hubiese imaginado que existía.

Personalmente, confieso, que a pesar de haber estudiado en cuatro universidades, donde más he aprendido, lo que más ha enriquecido mi mente y mi corazón, han sido los viajes: a la África misteriosa, a la India mística, al Japón de la modernidad, a la China de la cultura milenaria, al Egipto de los Templos increíbles; a la Oceanía mágica. He aprendido más, en los años que llevo en Brasil, sobre la felicidad y sobre la sabiduría escondida en la pobreza, en lo que significa trabajar para vivir en vez de vivir para trabajar, que en todos los libros, por sesudos que hayan sido, que han pasado por mis manos.

Europa fue rica por su diversidad. Hoy se está empobreciendo espiritualmente porque, como mucho tolera las diferencias, sin aceptarlas ni aplaudirlas, a veces hostigándolas.

Si es cierto que solo envejece quien pierde la capacidad de sorprenderse, no me cabe la menor duda de que la aceptación feliz de lo nuevo y de lo diferente podría ser el mejor antídoto y la mejor terapia contra ese desencanto y aburrimiento que nos abotargan con solo lo conocido y hace que despreciemos lo desconocido que nos ofrece una seguridad falsa y estéril.

Tarso Genro: “Vamos fazer jus à personalidade política dos gaúchos”

Publicado 05/07/2010 por leituraglobal
Categorias: Entrevista

do jornal Sul 21

O candidato Tarso Genro acredita que o PT amadureceu com o governo Lula, um governo de coalizão que ele ajudou a formar. Aposta que houve, também, uma mudança na visão da população em relação aos partidos de esquerda. Por isso, durante a campanha, afirma que o PT não adotará uma posição que define como “agressiva-defensiva”, mas propositiva, comparando o que foi feito nos governos dos demais candidatos com a atuação de seu partido, no âmbito municipal, estadual e federal. Não fugiu de temas polêmicos, como o refúgio político a Cesare Battisti; a possibilidade de duplo palanque, no Estado, da candidata petista à presidência, Dilma Rousseff; e o apoio de partidos que já foram adversários do PT. (Texto de Rachel Duarte e fotos de Eduardo Seidl)

O senhor já foi candidato a governador em eleições anteriores.  O que mudou, em relação ao pleito atual?

Sou candidato pela terceira vez. Todos nós, do PT, sempre tivemos um rosário de candidaturas, até a afirmação do PT como um partido com capacidade de disputa. Na primeira vez, em 1990, concorri na verdade para construir o partido. Em 2002, concorri numa tentativa de ganhar e fomos derrotados no segundo turno. Hoje o contexto político e econômico do Brasil é completamente diferente. Temos um governo nacional de coalizão, que mudou o imaginário da população em relação ao Partido dos Trabalhadores.  E, sobretudo, mudou a visão que o povo tem sobre uma proposta de esquerda conseqüente, para enfrentar os impasses do desenvolvimento nacional e os impasses da globalização, que se encontra em uma profunda crise.

No campo da estratégia de campanha, anteriormente havia uma definição de ataque aos adversários políticos. Hoje o PT repetirá esta forma de debate?

Na verdade, nas outras oportunidades foram ataques defensivos. Nós éramos vistos, o PT e os partidos de esquerda, como uma espécie de “patinhos-feios” da abertura democrática. E nós éramos sempre colocados pela grande imprensa como um partido sem alternativas e sem capacidade de governar. Então a nossa posição era uma posição defensivo-agressiva. Hoje, com essa mudança que houve no país, e com as sucessivas administrações que o PT teve nas cidades, nos estados e, sobretudo no governo Lula – do qual eu participei mais de sete anos – isso mudou. Hoje somos um partido de proposição e de afirmação das mudanças. Somos, portanto um partido que disputa em termos programáticos e não mais meramente nos defendendo do cerco político que a esquerda sempre foi submetida no país, inclusive depois da Constituição de 1988.

O senhor, como a governadora Yeda Crusius e o ex-prefeito José Fogaça, tem experiência política local e nacional. O senhor se considera mais qualificado para uma gestão com boa relação federativa?

Penso que os três candidatos são pessoas experientes e têm uma trajetória política conhecida perante a opinião pública. O que deve ser avaliado é qual a proposta que estes candidatos representam e o que fizeram enquanto estavam no governo. Que objetivos eles atingiram? Como eles se comportaram diante das responsabilidades com o Estado? O nosso debate será esse. Nós vamos apresentar um programa de futuro e mostrar o que nós fizemos enquanto estávamos no governo. Sem desrespeitar os adversários, sem desqualificá-los, mas não sonegando o debate político-ideológico.

Na prática, como será?

Vou dar alguns exemplos. O José Fogaça (PMDB) integra um partido que está no governo de Yeda Crusius (PSDB). Qual a diferença entre os dois? Esta é uma questão política que tem que ser explicitada. Segundo, a trajetória de Fogaça como prefeito apresentou resultados. Vamos comparar estes resultados com os do governo do PT na Prefeitura de Porto Alegre. Em terceiro lugar, tanto Fogaça como Yeda, com todo o respeito que eu tenho por eles, sempre aceitaram essa chantagem ideológica do “caminho único” aqui no Brasil. Ou seja, de que só tinha uma saída, a de ficar de joelhos para o FMI e para a lógica da especulação do capital financeiro, e governar segundo a sua visão. Tanto que eles estavam vinculados ao governo do Fernando Henrique Cardoso, que levou o país à beira do abismo. O presidente Lula mostrou que é possível mudar e crescer com distribuição de renda. E nós estivemos junto com o presidente Lula nessa caminhada. Então são diferenças políticas e programáticas, não ofensas ou ataques pessoais. É isto que vai nos separar e nos identificar na disputa para o governo do Estado.

Como o senhor prevê utilizar a novidade da Internet na sua campanha? E uma curiosidade, é o senhor mesmo que escreve no seu twitter?

Eu já aprendi a mexer. Às vezes faço e às vezes dito para o meu assessor. Mas a frase sempre é minha, isso é indelegável. Esses meios de comunicação são uma novidade, são positivos, democratizam a informação e atingem uma certa faixa da sociedade, que não se interessa por política, muitas vezes. Mas são insuficientes para fazer uma campanha eleitoral. Não há nada que substitua o debate na cena pública. Seja de maneira presencial, seja na televisão ou nas mensagens em programas de rádio. Porque é isso que, em última análise, atinge as grandes massas. Então, na verdade nós temos que aprender a combinar esses meios eletrônicos novos com a velha campanha eleitoral. Eu sempre fui muito seduzido pelo contato direto com o eleitor, como nós estamos fazendo agora para compor o nosso programa. Ouvir muito as pessoas do povo, que não integram partidos, é o que dá mais vigor a uma campanha eleitoral. Pois as pessoas, quando se reportam a ti, se reportam de maneira não subordinada a um partido político. Estas são as pessoas que trarão mais subsídios para o debate. São as pessoas do povo, normalmente da parte de baixo da pirâmide social, e que não estão ideologizadas.

No âmbito da segurança pública, o senhor desenvolveu um projeto que está mudando o paradigma nacional. A fórmula que une inteligência policial com projetos sociais será utilizada no seu governo?

O estado que aplicou o Pronasci [Programa Nacional de Segurança com Cidadania] da maneira mais plena foi o Rio de Janeiro, até porque lá as questões são mais graves. E as UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], que seguem o modelo do policiamento comunitário do Pronasci, estão tendo amplo sucesso. Já foram capa inclusive da revista The Economist, apontando uma mudança estrutural na segurança pública do país. Aqui no Rio Grande nós vamos aplicar integralmente o Pronasci. Eu posso dar centenas de exemplo, mas vou dar só um, que é o mais gritante. O Estado poderia ter criado uma estrutura institucional para permitir que os policiais gaúchos tivessem acesso ao plano nacional de habitação para o policial de baixa renda. Mas o Estado não fez isso. Esse programa é um esforço direto do Ministério da Justiça com a Caixa Econômica Federal e hoje já permitiu, no Brasil, que 17 mil policiais tenham seus imóveis. Ainda na área de segurança pública, pretendo dar um apoio fortíssimo aos Gabinetes de Gestão Integrada de Segurança Pública, com aparelhamento tecnológico, incluindo a Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal nestes gabinetes. A primeira coisa que vou fazer, caso for eleito governador, vai ser um convênio com a Polícia Federal e a Rodoviária Federal para integrá-las plenamente às ações contra corrupção e também naqueles crimes que são da sua competência, como o tráfico de drogas, contrabando e controle das fronteiras.

A Polícia Federal fez um trabalho exitoso na esfera nacional no combate à corrupção, enquanto o senhor foi ministro. O senhor irá utilizar as denúncias contra os seus principais adversários aqui no Estado no debate eleitoral?

É preciso esperar a finalização dos processos, dos inquéritos e o juízo definitivo do poder judiciário sobre o assunto. Qualquer manifestação precoce sobre este assunto, no âmbito de denúncias de corrupção, pode se tornar uma grande injustiça. Então este não será o tema que vou usar no debate. De minha parte, será o tema do combate à corrupção, independentemente de quem esteja envolvido nela, de qual partido for. Não acho que a utilização destes fatos, que presumidamente são fatos delituosos, que envolvem direta ou indiretamente pessoas do Estado, tenham um potencial cívico para melhorar a situação local e do País. O que foi feito pela grande mídia contra o presidente Lula, durante dois anos do seu governo, deve servir de lição para nós. Não devemos utilizar estes temas de maneira irresponsável, acho que este não é um assunto adequado para o desenvolvimento político do país e não pretendo utilizá-lo. Vou dizer, sim, como vou combater a corrupção aqui no Estado, que é como eu fiz no país. Nada mais do que isso.

Houve bastante polêmica na época que o senhor se posicionou no caso do italiano ex-ativista Cesare Battisti. O senhor acredita ter acertado, ao contrariar o parecer do Comitê Nacional de Refugiados e concluir que, por ter cometido crime político, Battisti tinha direito de permanecer no Brasil?

Essa é uma questão que foi ideologizada de má fé pela grande mídia. Então é natural que as pessoas fiquem confusas sobre o assunto. Eu só agi de acordo com os tratados internacionais sobre refugiados e direitos humanos. Isso foi escondido pela maioria da mídia. Inclusive as minhas decisões relacionadas ao caso Battisti foram fundamentadas em decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal sobre o mesmo assunto. O STF já não havia permitido a extradição de quatro ex-brigadistas italianos que tinham se refugiado no Brasil. Não foi dado o devido peso, na divulgação do caso Battisti, a estas decisões anteriores do Supremo. Fui criticado como se tivesse tomado uma decisão inédita, e isso constitui uma fraude informativa. Inédita foi, na verdade, a mudança de decisão do Supremo sobre o tema. Mas o STF manteve, afinal, uma posição de princípio, que é remeter ao presidente da República a solução do caso. Seria muito grave se isso mudasse. E isso foi mantido por cinco votos a quatro. Está nas mãos do presidente a decisão do Battisti. E acho que conseguimos sensibilizar uma parte da imprensa, que também divulgou os nossos pontos de vista. Houve inclusive uma coisa inédita: pela primeira vez, quando um ministro da Justiça sai do governo, houve um manifesto de juristas apontando a sua gestão como uma gestão exemplar. O fato nunca tinha ocorrido. Então eu me sinto satisfeito em relação a isso.

A imprensa teve comportamento diferente em relação ao caso Battisti e sobre a rediscussão da punição aos torturadores. Recentemente o STF manteve a Lei de Anistia no Brasil. Qual a sua opinião sobre essas situações?

Em relação à tortura, é um tema complexo. Na verdade, existe uma dubiedade para tratar deste assunto. Paira sobre a imprensa ainda o fantasma do poder militar no Brasil. Quando a imprensa divulga os processos contra torturadores no Uruguai e na Argentina, ela divulga de uma maneira mais isenta, mais livre, com menos espanto, com menos medo, me parece. E mostra os julgamentos que estão acontecendo lá. Quando é aqui no Brasil, parece que há uma espécie de temor dos formadores de opinião, de se chocarem com os porões da Operação Bandeirante, que estão todos soltos, produzindo blogues e vivendo normalmente. São os que mataram, assassinaram ou torturaram. Já os presos políticos, estes foram processados, cumpriram pena, foram presos, muitos torturados, depois foram anistiados. Então, eu acho que é uma espécie de temor reverencial à ditadura, que leva essas pessoas a divulgar de maneira tão deformada essa questão da punibilidade dos torturadores aqui no Brasil.

Nós temos que compreender isso dentro de um processo político, de uma transição política difícil, que no Brasil foi conciliada. Foi conciliada a tal ponto que o presidente do partido que dava suporte à ditadura militar se transformou no primeiro presidente da República que fez a transição para a democracia. Agora, a mim isso não impressiona, nem muda minha posição e nem me causa temor. Admiro e respeito as nossas Forças Amadas, pelo papel que elas têm na democracia e não pelo que fizeram na ditadura. Apoiei, como membro do Conselho de Defesa Nacional, a sua modernização e aperfeiçoamento tecnológico. Defendi mais recursos e melhores salários para os seus integrantes.  Acho que esta questão da tortura vai voltar no Brasil. E essa lamentável decisão do STF, com o voto espantoso para todos nós do ministro Eros Grau, ela um dia vai cair aqui no Brasil e o STF fará justiça. Isso não significa colocar ninguém na cadeia, nem perseguir generais que foram presidentes. Significa você ter o registro, na justiça, de que pessoas que cometeram barbáries possam ser julgadas pelo Estado de Direito. Apenas isso.

Jovens médicos formados pelo ProUni derrubam preconceitos e são motivo de orgulho

Publicado 30/06/2010 por leituraglobal
Categorias: Notícia

do Blog do Planalto

Visivelmente emocionado com a presença de 218 formandos em medicina que estudaram com bolsas do ProUni, o presidente Lula afirmou estar diante da foto de sua vida, em cerimônia realizada nesta quarta-feira (30/6) em Brasília. Os jovens presentes, que se formaram superando preconceitos e todo tipo de obstáculo, são grande motivo de orgulho para qualquer governante, disse Lula durante o evento, que marcou o início do seminário Perspectivas Profissionais na Área de Saúde, realizada em Brasília.

Assista o vídeo da cerimônia no You Tube:

Muitos criticaram o ProUni, afirmando que o programa nivelaria por baixo a educação brasileira, num preconceito injustificável, criticou o presidente, lembrando que uma avaliação feita pelo Ministério da Educação comprovou que alunos do ProUni tinham desempenho superior a outros estudantes universitários em 15 áreas avaliadas. “Eles foram precocemente rejeitados por uma parte preconceituosa da elite brasileira”, criticou o presidente.

“Não sei se até o dia 1º de janeiro vamos ter outra fotografia mais bonita do que essa para justificar a nossa passagem pelo governo. Porque o Brasil historicamente foi governado e pensado para atender uma pequena parcela da sociedade. Dava-se de barato que uma parte da sociedade tinha direitos e que poderiam fazer curso de doutorado, de graduação e de mestrado, e outra parte que estava predestinada a terminar o ensino fundamental, com muito custo fazer o secundário, e muito mais custo ainda arrumar um emprego.”

Ouça aqui a íntegra do discurso:

Baixar arquivo mp3

Um dos formandos presentes era Sara, do Pará, que vai ser formar médica no final do ano. O presidente contou aos presentes um pouco da história de Sara, que desde os três anos de idade queria ser médica e que enfrentou muitos problemas, financeiros e de saúde, para conseguir realizar seu sonho de infância. Lula elogiou a força de vontade de Sara e agradeceu suas palavras:

“Nós provamos que somos capazes, basta ter oportunidade. Agora eu quero retribuir o que o Brasil fez por mim”, disse ela.

O presidente Lula lembrou que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter uma universidade e teve vários presidentes que passaram seu mandato inteiro sem investir em uma única universidade — porque educação era considerado ‘gasto’ em vez de ‘investimento’, frisou Lula. Hoje, educação é prioridade de governo e assim foi possível chegar a números expressivos. “Em oito anos, eu, o Fernando Haddad (ministro da Educação) e o Zé Alencar (vice-presidente) já somos os que mais fizemos universidades federais neste País (ver aqui) “, lembrou o presidente, citando também o recorde de escolas técnicas criadas no Brasil durante o seu governo (ver aqui).

Isso tudo só aconteceu porque proibimos o uso da palavra gasto ao falar de educação. Dinheiro para educação deveria ser tratado como investimento, porque dá bom retorno ao País, estamos qualificando e preparando gente, para disponibilizar ao País inteligência, e não tem preço que pague isso.

As Políticas Culturais e o Bolsa Família: Sobre uma (breve) conversa com o Ministro Juca Ferreira

Publicado 25/06/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

por Giuseppe Cocco, publicado no Universidade Nômade

Na segunda feira, dia 31 de maio, fui participar de um encontro de intelectuais com Dilma – no Rio de Janeiro. Foi ótimo. Na saída, estava abraçando e parabenizando um dos organizadores (o professor Emir Sader) quando chegou perto de mim o Ministro da Cultura Juca Ferreira, que me disse logo, “escandalizado”: “você falou, logo você, que o Bolsa Família foi a maior política cultural do governo Lula ?! Com isso” continuou ele olhando para o chão, “você jogou tudo para baixo, rebaixou tudo ao mero economicismo: se o Presidente te escutasse, reduziria nosso orçamento”. Não tive tempo de argumentar nada, e ficou por isso mesmo.

Cocco: "o Bolsa Família é a maior política cultural e os pontos de cultura são a melhor distribuição de renda do governo Lula"

Com efeito, na semana anterior eu havia participado da primeira mesa plenária do VI ENECULT* cujo titulo era “As Políticas Culturais do Governo Lula”. Antes de mim o professor Renato Ortiz fez uma palestra sobre as transformações da cultura de massa e da cultura nacional diante dos desafios da globalização e o professor Albino Rubin uma explanação sobre as dinâmicas da produção cultural no Brasil. Talvez em função de uma outra atividade que estava programada para a noite (na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, em Cachoeira, com o jornalista Emiliano José), quando eu deveria falar das políticas sociais, decidi na hora abordar minha palestra com uma afirmação “forte”: de fato, eu disse sim que a maior política cultural do governo Lula era o Bolsa Família. Mas, dizer isso não significa “rebaixar” as políticas culturais. Muito pelo contrário (e é o que tentei explicar em minha palestra), trata-se de, em primeiro lugar, “culturalizar” as políticas de transferência de renda; e de, em segundo lugar, o que é ainda mais importante, colocar as políticas culturais (que o MinC dos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira implementaram com grande criatividade e determinação democrática, apesar dos recursos iniciais terem sido irrisórios) como cerne ou até modelo que qualifica as políticas sociais. Em outras palavras: dizer que as transferências de renda são políticas culturais significa afirmar que elas, qualificando as relações sociais, fomentam a criação. Ou seja as dinâmicas culturais dependem da expansão das políticas sociais (e não das “portas de saída”), em direção a outros valores, a um outro caminho de desenvolvimento: aquele que tem os pobres como sujeitos. Por sua vez, colocar as políticas culturais no cerne das políticas sociais significa dizer que o fomento público dos movimentos culturais (como no caso do Cultura Viva – Pontos de Cultura) tem como horizonte de sustentabilidade não apenas (o que já é importante) a complementação da “economia” cultural ou o “acesso” à cultura, mas a construção de uma “outra” cultura.

No ENECULT, no momento de introduzir minha fala, deixei bem claro que estava falando de cultura na definição que alguns antropólogos fazem ao mobilizar o relato de um etnógrafo sobre seus primeiros contatos com uma tribo indígena: “A maneira como eu não entedia (os indígenas) era diferente da maneira como eles não me entendiam”. Com efeito, parafraseando essa afirmação, podemos dizer que “a maneira como o Ministro (não) entendeu minha afirmação é diferente da maneira como eu (não) entendi seu escândalo”. A cultura da qual estamos falando é a própria relação social e sua dinâmica mais criativa e democrática: a alteridade e a diferença! Essa definição de cultura não se deixa encapsular na perspectiva identitária e ainda menos naquela da indústria cultural, ou como um especifico setor de atividade econômica (o “lazer” ou o turismo).

A dimensão relacional da cultura como terreno de produção da diferença nos permite apreender o debate sobre sua centralidade paradoxal no capitalismo contemporâneo e, com isso, as dimensões estratégicas (políticas e econômicas) das inovações introduzidas pela atual gestão do MinC. No capitalismo das redes e do conhecimento, a cultura não é mais um setor de atividade produtiva (a indústria cultural criticada pela escola de Frankfurt), nem uma atividade restrita à esfera da reprodução (a cultura como “lazer”, ao qual deveríamos ter acesso, ou como “educação”, à qual deveríamos ter direito). A cultura é hoje investida como relação, forma de vida. Ela é o principal terreno de produção do valor e, nessa exata medida, ela é o próprio terreno da produção da significação: world making, dizem até os economistas. Uma produção de “mundos” que vai muito além da fábrica. Mesmo quando o trabalho acontece no chão de fábrica, ele mobiliza as faculdades subjetivas do trabalhador, Marx dizia, o “trabalho imaterial”: intelectual, comunicativo, linguístico, afetivo. Dessas faculdades dependem os ganhos de produtividade. Isso porque o regime de acumulação do capitalismo cognitivo (ou da economia do conhecimento) no qual o neoliberalismo era a ideologia hegemônica (falo no passado porque a crise financeira já decretou a obsolescência deste modelo, embora seus fantasmas continuem nos assombrando, como hoje acontece na Europa) mobiliza o trabalho diretamente na sociedade: a tendência é separá-lo sistematicamente da relação (salarial) de emprego. Idealmente, a melhor relação de emprego é aquela que não acontece: o trabalho é realizado como prestação de serviço, em uma sequência interminável de fornecedores de fornecedores de fornecedores espalhados no território: o outsourcing(muitas vezes “global”), as redes de serviços e até o crowdsourcing, em particular nas grandes metrópoles. Quanto mais o trabalho se moderniza (e suas dimensões materiais dependem das imateriais), tanto mais o emprego é substituído pela empregabilidade e se torna precário, intermitente, desprotegido, informal. No fim de linha, o trabalhador ideal será aquele que se transforma – isso sim de maneira fictícia – em Pessoa Jurídica (persona ficta): bem nos termos das “Notas de Favor” (Notas Fiscais “compradas” junto a empresas especializadas nesse tipo de [não]-atividade), quando os trabalhadores da cultura e do terceiro setor, mais em geral, são obrigados a ter, eles mesmos, de resolver os termos (contratuais) de sua remuneração (vide o movimento Re-cultura).

Esse regime de acumulação é altamente inclusivo, mas uma inclusão que muda radicalmente de sinal: por um lado, ela não significa mais uma certa integração social (e acesso a um sistema de proteção: à inclusão no trabalho corresponde uma exclusão dos direitos); pelo outro, o próprio capitalismo perde as bases objetivas de mensuração do valor, posto que a produção acontece fora da relação de emprego, numa dinâmica de virtual autonomia, exatamente como nos “movimentos culturais” que os Pontos de Cultura do programa Cultura Viva tiveram a coragem de reconhecer.

Dito de outra forma, o capitalismo – precarizando e investindo um trabalho que coincide com as próprias redes sociais e técnicas – passa a explorar diretamente a vida inteira da população, ao mesmo tempo em que perde aquela base objetiva que lhe permitia legitimar-se (social e economicamente), por ser a condição necessária à produção de riqueza. A vida social é a nova fonte da riqueza e terreno de aposta do venture capital, capital de risco, risco paradoxal de uma vida que se torna potente e precária ao mesmo tempo.

A crise dos subprime (e agora do sistema europeu de welfare) é o fato dessa contradição: por um lado, o trabalhador deve não mais procurar um emprego, mas procurar manter-se empregável e por isso investir em seu “capital humano”: saúde, educação, telefonia, computação, TV a cabo e uma moradia onde possa fazer funcionar tudo isso. Pelo outro, a privatização dos serviços, o desmonte do sistema de proteção social e a precarização do emprego fazem com que os trabalhadores só consigam investir em seu “capital” (humano e/ou social, como diz o jargão) por meio do acesso a um crédito cuja expansão exponencial – a financeirização – dava a impressão de poder governar o descompasso: a crise financeira do capitalismo global nos mostra o impasse ao qual leva o paradoxo.

Quando as redes são a nova estrutura de produção (redes sociais, metropolitanas, de informação e comunicação) o tempo de vida se mistura ao tempo de trabalho: os preços e o lucro (a acumulação) não têm mais lastro no tempo de trabalho (excedente). O valor se torna uma determinação cada vez mais arbitrária (como um imposto) na captura das formas de vida, em um regime de acumulação que produz formas de vida (conhecimento) por meio de formas de vida (conhecimento). A cultura se encontra duplamente no cerne desse deslocamento: porque, quando é a vida como um todo que é investida (subsumida, diria Marx), é a própria dinâmica relacional da cultura que é o terreno da acumulação e também das lutas; e porque quando o valor perde sua métrica, a determinação dos preços se torna, simplesmente, arbitrária, quer dizer política: quanto vale um “pulso” de uma comunicação por telefone móvel? O que determina o preços dos bens culturais que hoje podem ser reproduzidos tendencialmente a custo zero e até sem suporte, diretamente nas redes? Não são as agências reguladoras (da telefonia, por exemplo) ou os produtos proprietários (copyright) que respondem. A realidade disso são as “Notas de Favor”, a pirataria e até (nas grandes metrópoles brasileiras) as “milícias”. O paradoxo contem uma nova e violenta contradição. A cultura é, ao mesmo tempo, o terreno de construção de uma nova métrica (de uma significação) para a economia e o trabalho como um todo, e nela encontramos os fenômenos mais brutais de precarização e perda de sentido. É nela que se produzem formas de vida por meio de formas de vida (construção de mundos) e, ao mesmo tempo, é nela que o mercado e a lógica do capital se afirmam como “perda de mundo”: a globalização na qual estamos é nossa fábrica, aquela que construímos e que, ao mesmo tempo, nos explora. A metáfora que a meu ver mais explicita este deslocamento é mesmo a da colméia: do trabalho da abelha (do pobre) reconhece-se apenas o que se traduz em produção de mel (ou seja, quando o pobre consegue ser abelha-operária, com emprego formal de tipo industrial); e não se reconhece o trabalho de polinização, ou seja, o trabalho da cultura como relação, intensidade de relações sociais de produção de mundos. O capital captura nossos excedentes de vida (nossa cultura!) e não paga, a não ser na forma das finanças, quer dizer da relação de crédito-débito, que pretendem substituir ao emprego e ao welfare (proteção social): transformando nossa vida em carteira de risco, bem como o próprio planeta.

O debate sobre a sustentabilidade dos Pontos de Cultura é emblemático: diz-se que eles ficam dependentes dos repasses de recursos públicos quando, na realidade, toda a produção cultural depende do recurso público (vide o escândalo da Lei Rouanet) e todo o sistema global do crédito está hoje “encostado” nos orçamentos estatais. O trabalho criativo e produtivo dos Pontos de Cultura, enquanto redes de singularidades que cooperam entre si se mantendo tais (mantendo-se “abelhas” singulares no processo de polinização) precisa ser reconhecido por uma Renda Universal (inicialmente atrelada a essa mobilização dos mais pobres). Da mesma maneira, a distribuição de renda para os mais pobres deve ser reconhecida como terreno de mobilização produtiva e cultural, que vai muito além do “combate darwinista à pobreza”.

Assim, minha frase inicial, “o Bolsa Família é a maior política cultural do governo Lula” pode ser completada e complementada com a afirmação de que “os pontos de cultura são a melhor distribuição de renda do governo Lula”.

* Na UFBa, em Salvador, 25 de maio de 2010, de cuja abertura oficial participou inclusive o Ministro da Cultura.

Brasil x Argentina

Publicado 19/06/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

(Para não dizerem que não falamos da Copa)

por Vinícius Wu

Nosso blog normalmente trata de política. Mas como não gostamos muito da idéia de ficar fora de moda, tratemos um pouco de futebol. Que ninguém espere uma análise dos esquemas táticos das principais seleções, tampouco previsões sobre o time campeão e os artilheiros da Copa. Mas o tema não será enfadonho.

Afinal, sabemos que em plena Copa do Mundo, não é recomendável esperar que alguém vá ocupar-se da leitura de um artigo chato quando poderia acompanhar mais um “jogo históóóórico” (locutores adoram isto) como, por exemplo, Eslováquia e Nova Zelândia (sic). Não pretendemos, portanto, ocupar o precioso tempo do torcedor com bobagens.

Falemos, então, do assunto preferido da grande mídia por estes dias: a rivalidade entre Brasil e Argentina. Vamos tratar, especialmente, de Dunga e Maradona. E antes que algum chauvinista de botequim acuse-me de “antipatriota”, lembro que essa história de hostilizar argentino é enredo fora de moda pra patuscada de fim de semana, que só interessa a fabricante de cerveja e refrigerante.

Torcer pelo Brasil é natural, e não deixo de fazê-lo, mas não ao estilo Galvão Bueno que, como bem alertou o amigo Migliaccio, parece acreditar que temos um quilo de salsicha recheando nossa caixa craniana. Torcer como sugere o Galvão é impensável para quem possui, ao menos, um punhado de neurônios

Bem, vamos então aos nossos dois técnicos. Ambos foram jogadores e campeões mundiais. Os dois são técnicos estreantes nesta copa. Um e outro se notabilizam pela prepotência e pela língua afiada. Mas as semelhanças param por aí.

Afinal, um fez do futebol espetáculo e da bola um instrumento de sua arte. O outro fez do futebol seu ofício e da bola sua inimiga.

Um é recebido pelo presidente mais popular das Américas – e talvez do mundo – e se recusa a tirar a mão do bolso para cumprimentá-lo. Outro recebe as mães da Praça de Maio, diz que lhes dedicará o título e adere à campanha para que estas recebam o Nobel da Paz – num belo gesto desprezado pela maior parte de nossa grande mídia.

Não quero dizer com isso que um é “bom” e de esquerda e outro “mau” e de direita. Provavelmente, ambos nem saibam direito o que é direita e esquerda. Menos ainda espero de Dunga o apoio à Lula. Mas estamos tratando do Presidente de uma República que se mobiliza pra torcer por sua seleção e assim cria as condições para que se paguem os bons salários da nossa brilhante comissão técnica. Além disto, espera-se, de qualquer um, ao menos um gesto de boa educação numa situação como esta.

Ao definir os nomes de sua seleção Maradona optou pelo talento, Dunga preferiu a obediência.

Dunga é fruto do controle absoluto e lastimável da CBF por seu eterno presidente-proprietário que lhe ofereceu a Copa como estágio. Maradona é novato em Copas, mas já havia dirigido um dos maiores clubes argentinos. Além disto, entende e, principalmente, gosta de futebol.

Vamos parar. Não é boa essa comparação para o Brasil. Torcerei sim pela nossa seleção, por vários motivos. A começar pelo fato de ter um bom motivo para encontrar e tomar uma com os amigos nos dias de jogo do Brasil. Ver as pessoas com as quais convivo felizes, amar o meu país e nosso povo também são outros bons motivos.

Mas não me peçam para acreditar que Dunga é arrogante por que é “profissional” e “exigente” e que Maradona é prepotente por que é argentino. Também não quero detestar a Argentina, declarar guerra à Bolívia e oprimir o Paraguai. E fico por aqui antes que digam que sou eu quem está misturando política e futebol.

O Brasil de John Gerassi

Publicado 15/06/2010 por leituraglobal
Categorias: Análise da semana

por Vinícius Wu

“(…) o Brasil não pode ser ignorado. Quando ele sonha, sacode Washington. Quando se move, desloca o continente. E quando explodir, abalará o mundo. O Brasil tem a capacidade, o espaço territorial, o intelecto e a força necessária para se tornar uma potência mundial. Somente ele pode tirar a América Latina de sua paciente e desesperançada letargia, colocando-a na estrada do progresso e da justiça. Que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, virá a desempenhar esse papel ninguém duvida.” John Gerassi

Não, caro leitor, John Gerassi não é nenhum entusiasta da política externa do governo Lula. Nem tampouco se trata de algum grandiloqüente e otimista servidor do Itamaraty. O raciocínio sequer tem a ver com o novo papel desempenhado pelo Brasil na atual ordem global.   Na verdade, trata-se de uma conclusão feita no ano de 1964 por um reconhecido estudioso da realidade latino-americana.

Os mais antigos talvez se lembrem com mais facilidade de John Gerassi e de sua obra mais conhecida no Brasil, “A invasão da América Latina”, lançada em nosso país no ano de 1964 e de onde extraímos o trecho citado acima. Gerassi foi um eminente jornalista norte-americano, redator da revista TIME e, posteriormente, encarregado de assuntos latino-americanos da NEWSWEEK. O referido livro causou indignação nos EUA ao denunciar diversas manobras políticas, sabotagens e golpes patrocinados pela CIA e pelo Pentágono na América Latina.

Gerassi conheceu profundamente a realidade latino-americana. No Brasil acompanhou de perto, nos anos que antecederam o golpe civil-militar de 1964, a experiência desenvolvida por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, personalidade política latino-americana que lhe despertou profunda admiração.

Reler Gerassi talvez nos ajude a compreender melhor o Brasil de hoje. E, para muitos, talvez seja um caminho para o reconhecimento da importância estratégica dos movimentos realizados pelo governo brasileiro no âmbito de sua política internacional. Para aqueles que encontram imensa dificuldade em superar a “síndrome de vira-latas”, que tanto apequena as pretensões de alguns articulistas da grande mídia, esta talvez seja uma leitura necessária e (por que não?) reveladora.

"Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século."

A forma como diversos setores da grande mídia trataram o acordo obtido pela diplomacia brasileira no Irã é paradigmática. Foi preciso que o jornal britânico Financial Times saísse em defesa da ação do governo brasileiro para que alguns veículos transitassem para uma postura “tolerante” em relação aos movimentos do Itamaraty. Uma desmedida vocação para a subserviência aflorou com uma intensidade poucas vezes vista em nossa história recente. Os mesmos que avocam a defesa da “soberania nacional” e dos “interesses do país” em relação a temas que envolvem países como Bolívia ou Paraguai comportaram-se como verdadeiros serviçais, em pânico por contrariarmos os interesses do grande irmão do norte.

Gerassi talvez lhes fosse útil para que compreendam o peso em potencial do Brasil na (re)definição da ordem internacional deste início de século.

Mas Gerassi não foi o único “brasilianista” a prever uma posição destacada do país no cenário internacional. Poderíamos encontrar ecos das teses de Gerassi em diversos analistas de política internacional nos dias de hoje e até mesmo em algumas vozes do mercado.

Para Martin Sorrel, por exemplo, o Brasil é a “marca mais charmosa a ser vendida ao redor do planeta”. Ele associa explicitamente o sucesso brasileiro no exterior ao desempenho do Presidente Lula. Sorrel é considerado por muitos o homem mais importante da publicidade mundial e preside o maior conglomerado de publicidade do planeta.

As críticas à política externa do atual governo partem de um conjunto de “especialistas” que, sistematicamente, reservam ouvidos moucos a inúmeras análises elogiosas feitas por intelectuais absolutamente insuspeitos mundo afora. É o caso das teses defendidas recentemente por ninguém menos do que Richard Haass, ex-diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado dos EUA. Ao refletir sobre o papel dos emergentes na nova ordem global, Haass alerta para o fato de que “o que torna um país grande não é o tamanho de seu território, de sua população, de seu Exército ou de sua economia, mas a maneira como ele usa seu poder para moldar o mundo além de suas fronteiras”. Nesta perspectiva, a ação brasileira no Irã não é insensata ou pretensiosa, mas estratégica.

Ao ler as palavras de Gerassi reproduzidas no início deste artigo soa tentador lançar mão de um surrado lugar-comum e caracterizá-las como “proféticas”. Prefiro acreditar que Gerassi apenas olhou para a América Latina e para o Brasil despido de preconceitos e superstições. Refletiu sobre seu futuro com acuidade. E com a serenidade de um grande estrategista antecipou tendências e projetou cenários. Sem servilismo ou mistificações.

A revolução dos pobres

Publicado 09/06/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

O Bolsa Família é distribuição de renda sem submissão às leis do mercado, e é condição, portanto, para a transformação dos valores sociais e políticos.

por Emiliano José

Encontrei-me com Giuseppe Cocco no lançamento de um livro em que os autores eram Boaventura dos Santos e Tarso Genro, além dele próprio. Os três estavam à mesa, e o encontro se deu no Teatro Vila Velha, velho espaço da resistência e criatividade cultural de Salvador. Não me lembro a data exata, Tarso Genro ainda era ministro. Pela primeira vez, ouvi uma abordagem original sobre o Bolsa Família, esse extraordinário programa executado pelo governo Lula, hoje famoso mundialmente por suas espantosas conseqüências positivas para os pobres do Brasil.

Boaventura dos Santos, um dos mais importantes intelectuais do mundo atualmente, a par de fazer uma análise muito positiva sobre o governo, arriscou-se a dizer que ele lamentava apenas que houvesse programas de natureza assistencialista no governo Lula, naturalmente querendo referir-se, entre outros, ao Bolsa Família. Giuseppe Cocco não contou conversa e não revelou nenhum temor reverencial diante do monstro sagrado Boaventura dos Santos. Diria que desmontou os argumentos do intelectual português, subvertendo os termos da análise. O buraco era mais embaixo. Vou tentar interpretar a sua fala.

E o faço porque ela foi reavivada no dia 25 de maio, na histórica cidade de Cachoeira, a 100 quilômetros de Salvador, e histórica porque Cachoeira antecipou a luta pela independência em junho de 1822. Foi reavivada na conferência feita por Giuseppe Cocco sob o título As políticas sociais do governo Lula para algumas centenas de trabalhadores, lideranças religiosas, muitos estudantes e professores da Universidade Federal do Recôncavo, vindos de Cruz das Almas, Valença, Conceição do Jacuípe, Santo Amaro, Muritiba, Maragogipe, São Félix, Santo Antônio de Jesus, além naturalmente de Cachoeira, municípios do Recôncavo Baiano.

A conferência e o debate foram promovidos pelo Núcleo de Comunicação e Política, da Universidade Federal da Bahia, que lidero ao lado dos professores Gilberto Wildberger e João Carlos Salles, ambos da UFBA. Ela integra um ciclo denominado A política e a vida na esquina do mundo, que já trouxe a Salvador o jornalista Mino Carta para a conferência O partido político da mídia. A Universidade Federal do Recôncavo, co-patrocinadora da conferência de Giuseppe Cocco, tem sacudido a região positivamente, seja do ponto de vista das condições materiais, seja principalmente da oxigenação do pensamento, do estímulo ao debate. E a presença de Cocco foi um desses momentos altos de reflexão, trazendo um pensamento original a toda a região.

Voltemos, então, à fala de Cocco, e creio que ele, um dos principais discípulos de Antonio Negri, merecia muito mais destaque em nossa mídia. Mas, nossa mídia é o que é, e a fala dele vai na contramão de tudo que ela pensa sobre o governo Lula. Ele disse lá, no lançamento do livro a que me referi no início desse texto, e cá, no dia 25 de maio, que a política dos pobres dos dois governos Lula desnorteia a oposição conservadora – ou a mídia conservadora, que é a mesma coisa – e a extrema-esquerda, e que curiosamente as duas convergem nas críticas à política social do governo Lula, e particularmente ao Bolsa Família. É estranho, mas compreensível que direita e extrema-esquerda se encontrem, mas tem sido assim também no Congresso Nacional.

Antecipo que posso equivocar-me na interpretação do pensamento dele porque não estou sendo literal. Tento, no entanto, ser o mais fiel possível. Eu o ouvi agora e antes, em duas ocasiões. Na contestação a Boaventura, recordo-me, ele surpreendeu a todos ao conferir ao programa Bolsa Família uma natureza revolucionária. Lá como cá, ele afirma que o Bolsa Família tem o mérito de não se render à lógica econômica e de se inscrever positivamente a favor dos pobres, numa conjuntura em que o capital não está mais limitado a um determinado país ou região e nem se baseia mais na industrialização como motor do desenvolvimento. O capitalismo de hoje está em todo lugar e funciona em rede, por esquinas como ele mesmo diz, “juntando as esquinas e mantendo as suas especificidades – digo isso para jogar um pouco com o tema desses colóquios ricos que vocês estão fazendo”.

O capitalismo neoliberal, globalizado e organizado em rede, trabalha pela exclusão sistemática do acesso aos direitos e pela redução dos sistemas de proteção social. Desse ângulo, é excludente. Isso, no entanto, é apenas um lado das transformações do capitalismo nessa quadra do mundo. E aí vem outra surpresa da análise dele: esse novo capitalismo é altamente inclusivo. Mas, anotem, inclusivo no sentido de incluir todo mundo dentro do processo de exploração, desde algumas centenas de milhões de chineses até os 200 milhões de brasileiros. Anteriormente, ser incluído era estar integrado ao capitalismo industrial e ao que a ele se ligava, era o capitalismo do mundo formal, do emprego formal. O resto, ficava excluído.

O capitalismo contemporâneo funciona de forma diferente, muito diferente, incluindo todo mundo num mesmo sistema, inclui cada esquina na sua particularidade, “conectando essas esquinas em rede”, como disse em Cachoeira. Ele usou o exemplo, que pode ser entendido como uma grande metáfora, ou como expressão dessa nova e estonteante realidade, que é o da telefonia.

Antes, sob o capitalismo industrial ou planejado, era a telefonia fixa, direito adquirido apenas para quem tinha um emprego. “Se eu tinha uma inserção na relação salarial era porque eu tinha um emprego, e assim era considerado cidadão, por isso eu tinha um telefone fixo”. Se não tivesse trabalho assalariado, não tinha o direito do telefone fixo.

O telefone celular, como expressão das mudanças do capitalismo, como expressão do regime de acumulação, “cabe no bolso de qualquer esquina, construindo e se constituindo como base para uma rede”. Ele inclui os excluídos enquanto tais.

E de que modo inclui, com que novas características? O capitalismo contemporâneo explora não só o nosso tempo de trabalho quando estamos dentro da fábrica ou submetido a qualquer emprego. Ele explora todo o nosso tempo de vida, exatamente como no modelo da telefonia celular, que incluiu a todos e que subtraiu a possibilidade da separação entre o tempo do trabalho e o tempo livre. Não há mais tempo livre. O novo capitalismo explora a vida de todos o tempo todo, junta todos num mesmo saco.

“O que é explorado é a nossa própria relação social, é a nossa própria forma de vida”. Ainda permanecendo na metáfora do celular, ele afirma que, nesse caso, o que é explorado quando se cobra o uso do telefone celular é o pulso, é o minuto do uso pulso. Mas o que é esse minuto? É o que decidirmos que seja. “É o que usamos para viver, para trabalhar, para circular, pra ter afetos, para organizar a vida”. Em síntese, o que é explorada é a nossa vida social, e não a nossa vida individual simplesmente. Vivemos sob um capitalismo que explora toda nossa vida em sua diversidade, na sua multiplicidade.

Num capitalismo dessa natureza, as políticas sociais não podem mais ser vistas como compensação em relação aos problemas de extrema pobreza, nem de falta do crescimento econômico, mas elas, as políticas sociais do governo Lula, significam o reconhecimento das dimensões produtivas da vida, o reconhecimento de que todos são produtivos, mesmo os que não estão empregados formalmente.

Eu volto agora à contestação que Cocco fez a Boaventura. Quem disse que o capitalismo pode ensejar o pleno emprego? Quem disse que ainda vige o capitalismo industrial, com seu sonho de tornar a todos um operário ou tornar todos empregados em torno da lógica fabril?

Foto: Felipe GesteiraO Bolsa Família, ao reconhecer o capitalismo em rede, ao localizar a multidão de pobres que se integra a ele, e que não se integrará nos termos formais anteriores, persegue uma lógica anticapitalista, não se subordina à lógica do mercado, não se atém à idéia de que o mercado irá absorver todos no emprego formal, por mais crescimento econômico que o país experimente.

Por isso, estava certo Lula quando disse que longe de diminuir tinha que aumentar os recursos para o Bolsa Família. E me lembro também de Patrus Ananias, numa das ocasiões em que veio à Bahia, quando disse que não se tratava de pensar na “porta de saída”, como afirmam alguns destacados membros de nossa burguesia, de nossa mídia, de nossa oposição desnorteada, mas de pensar em abrir mais e mais as portas de entrada para os pobres.

O Bolsa Família é distribuição de renda sem submissão às leis do mercado, e é condição, portanto, para a transformação dos valores sociais e políticos, e também para a transformação da política econômica, para provocar outra lógica na política econômica.

“É necessariamente uma política dos pobres pelos pobres que, necessariamente, é a política da diferença”. Por isso, talvez, é que Cocco, numa palestra que fez pela manhã no mesmo dia 25, no auditório da Reitoria da Universidade Federal da Bahia, tenha dito que a verdadeira política cultural do governo Lula era o Bolsa Família que, com a distribuição de renda, reconhece a dimensão produtiva da vida, transforma o conceito de cidadania e, com isso, o próprio conceito de cultura “na medida em que a cidadania não é mais, e não será mais, a conseqüência do mercado, nem da recuperação do processo de industrialização anterior”.

A cidadania será a condição, o ponto de partida para o desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, outro desenvolvimento, que não precisa ser mais capitalista, que caminha para a reformulação do próprio conceito de valor. Como podem ver, é muita provocação num único autor, e que por isso merece ser lido e estudado.


Editorial do nº 12 da Revista Global/Brasil

Publicado 31/05/2010 por leituraglobal
Categorias: Opinião

por Giuseppe Cocco

 

Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não

(…)

Pensem que isto aconteceu:

e lhes mando essas palavras.

Gravem-na em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar, ao levantar

repitam-nas a seus filhos.

Ou senão, desmorone-se a sua casa,

a doença os torne inválidos,

as seus filhos virem o rosto para não vê-los.

Primo Levi

1) A centralidade paradoxal da vida dos pobres nas metrópoles brasileiras: Biopoder versus Biopolítica

Como tudo no capitalismo, a favelização foi e é um processo contraditório. A chegada dos pobres nas cidades tem (pelo menos) dois grandes determinantes:

- o primeiro determinante é a persistência do latifúndio (inclusive graças à ditadura que reprimiu os movimentos camponeses e continua encontrando amplo apoio naquela mídia que lhe deve concessões estatais e proteção econômica), que expulsou a população rural do campo (do mesmo jeito que a abolição tardia da escravidão acabou empurrando os escravos libertos para a formação das primeiras favelas);

- o segundo determinante é o movimento de resistência que atravessou o país com o êxodo rural rumo a melhores condições de vida e trabalho, dentro do processo de urbanização e para além de sua capacidade de absorção industrial (da mesma forma que os quilombos, as favelas foram também zonas de autoconstrução de espaços urbanos de resistência, persistência dos pobres a viver, desejar, dançar, criar).

Assim, a fuga dos retirantes, a exemplo do Presidente Lula (o mais popular que o Brasil já teve e que proporciona ao país uma popularidade mundial sem precedentes) foi um movimento paradoxal: fruto de relações de poder iníquas (desiguais, racistas e neo-escravagistas) e, ao mesmo tempo, terreno de resistência, luta e invenção. As favelas (e as várias formas de ocupação ilegal, informal, desordenada do solo urbano – ou em via de urbanização) que constituíram nossas “pobres grandes cidades” são também o emblema dessa ambiguidade.

As favelas são, ao mesmo tempo, a vergonha de um poder que trata os pobres como lixo e o orgulho da resistência dos pobres que constituem tudo que é riqueza e valor do Rio de Janeiro e do Brasil. Elas são um estorvo que a elite neo-escravagista continua a sonhar em poder remover para a periferia, em tornar invisível. Mas, elas são também o espaço da dignidade das velhas e novas guardas de pobres que lutam e inventam, resistem e criam.

Em cidades como o Rio de Janeiro, mais do que em outras, as relações de poder e de produção atravessam e são atravessadas pelos embates que dizem respeito às favelas e aos pobres. O grande desafio do bloco de poder – uma mistura sui generis de elites arcaizantes bem representadas pelos grandes meios de comunicação, segmentos institucionais de tipo mafioso (ligados à corrupção e ao tráfico) e setores tecnocráticos (das grandes empresas e do aparelho do Estado) – tornou-se o de regular as vidas dos pobres por meio do controle do processo e do fenômeno de favelização. Por isso, esse bloco de poder se apresenta como um bloco de Biopoder, um poder organizado sobre a vida dos pobres. O grande desafio das lutas populares também passou a ser, com a abertura democrática, a organização dos pobres e a construção de uma forma de representação adequada a essa subjetividade social, uma subjetividade que se expressa e se constitui nas formas de resistência e construção da cidade pelos e para os pobres: nas favelas e nas várias formas de “informalidade”, quer dizer, nas formas de direito constituídas desde baixo, nas ruas, nas redes de socialização dos pobres, completamente separadas do formalismo jurídico do Estado.

A clivagem social e ética parece nítida: o poder, de um lado; os pobres do outro. Porém, uma vez traduzida em termos políticos, essa clivagem não se mantem mais. Os setores “progressistas” (modernizadores, poderíamos dizer) dos dois blocos (o da “direita” e o da “esquerda”) convergem numa visão negativa da pobreza e dos pobres; uma convergência que se traduz, por exemplo, no uso e no abuso – sempre pejorativo – do termo “populismo”. Os pobres são um problema, e se não aceitam as “soluções” tecnocráticas e burocráticas que os “governantes” pensam para eles, é que merecem mesmo a miséria na qual se encontram, e até o risco que correm por persistir em morar nos morros. Ou seja, são vidas que não merecem serem vividas! Emblemática a análise de André Singer (militante do PT) sobre o que ele chama de “lulismo”: um tipo de “bonapartismo” sustentado pela “base sub-proletária” que “não consegue construir desde baixo as suas próprias formas de organização”1.

No Rio de Janeiro, essa “direita” e essa “esquerda” constituíam (e, em parte ainda constituem) as duas faces de uma mesma moeda: a classe média e alta carioca, os ricos, e boa parte do funcionalismo público. Não por acaso, essa convergência aconteceu de fato em 1994, por ocasião de uma “com-juntura” (junção de duas “urgências” = conjuntura) favorável a essa inflexão: por um lado, a necessidade – da parte do poder – de evitar por todos os meios que a experiência operária do PT paulista se radicasse no Rio a partir da vitória eleitoral de uma mulher, negra e favelada (a Benedita), implementando um PT realmente carioca (um PT dos pobres); pelo outro, a opção pelo oportunismo de um político egresso do brizolismo.

@revistaglobalbr

http://www.revistaglobalbrasil.com.br/


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.