Republicanismo e o novo Governo do RS

Publicado 05/12/2010 por leituraglobal
Categorias: Análise da semana

por Vinícius Wu, publicado no jornal Zero Hora de 4/12/2010

@vinicius_wu

A vitória da Unidade Popular pode recolocar o Rio Grande na vanguarda da inovação em termos de governança democrática em escala global. A exemplo do que ocorreu na década de noventa, quando Porto Alegre tornou-se símbolo mundial da participação popular e cidadã, nos vemos agora diante da possibilidade da retomada do protagonismo político do estado, habilitando-o a contribuir com a renovação da agenda progressista internacional neste início de século.
As profundas mudanças realizadas na estrutura de classes da sociedade brasileira possibilitam a emergência de novos temas na cena política do país e a retomada de grandes questões ainda não resolvidas no curso de nossa experiência democrática pós-Constituição de 1988. E uma das mais importantes refere-se ao aperfeiçoamento do controle social sobre o Estado – elemento indispensável à superação do patrimonialismo, do clientelismo e mais um conjunto de práticas que atentam contra o interesse público e a realização plena da democracia.
Portanto, situar a promoção dos valores republicanos no centro de uma estratégia de governo inovadora pode oferecer uma importante contribuição à consolidação de nossas instituições democráticas.
Convém, a propósito, discorrer brevemente acerca dos conceitos que informam nossa apropriação destes valores.
 
Qual República
Nossa democracia reclama a revalorização do pensamento republicano, em especial, onde este acentua a questão da participação e da interferência de todos na realização do bem comum.
Afinal, por República compreende-se não apenas a existência de um regime de poder organizado por leis e exercido em benefício do povo. Menos ainda, se resume a um mero contraponto institucional ao regime monárquico. Um regime Republicano é aquele no qual o exercício do poder é realizado pela própria comunidade de cidadãos. A interferência de todos nos negócios da cidade, é marca fundamental de uma Res Pública.
Mas República também é aquele regime no qual quem governa se submete à lei da mesma forma como aquele que é governado. O Constitucionalismo moderno sugere que governantes devem ser contidos pelas regras do jogo democrático. A República proclama a supremacia do bem comum sobre qualquer interesse particular e, assim, organiza seu princípio de legitimidade.
Não será preciso reiterar aqui o impacto positivo da validação prática destes princípios na direção de um eficiente combate à corrupção e aos desvios das funções públicas do Estado.
Vale lembrar que este conjunto de valores encontra pleno respaldo em nosso arcabouço constitucional. Nossa Carta Magna assume, em seus fundamentos, a busca permanente da ampliação das possibilidades de participação popular, da redução das desigualdades regionais e a promoção da igualdade.
Se soubermos transformar estes valores em políticas de Estado daremos um passo decisivo no caminho do fortalecimento de nossas instituições democráticas, além de contribuir com a reinvenção criativa da política e das relações entre Estado e sociedade.
A formação do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, a instituição de um novo sistema de participação e a utilização das novas tecnologias na democratização da gestão pública tem como ponto de partida o conjunto de questões suscitadas neste breve artigo.
Mas, o aperfeiçoamento das novas relações entre o Estado e a sociedade gaúcha dependerá do envolvimento de amplos segmentos nesta busca pela transformação da utopia republicana em uma marca da nova administração popular do Rio Grande.

Dilma é garantia do processo democrático

Publicado 18/10/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

por Giuseppe Cocco, publicado na Folha de São Paulo em 17/10/2010.

É só no governo de Dilma que poderemos continuar lutando para transformar o crescimento em um outro tipo de desenvolvimento

O medíocre desempenho eleitoral de José Serra nesse primeiro turno é consequência do esgotamento do discurso tecnocrático que, durante a breve hegemonia da macroeconomia neoliberal, tinha funestamente reanimado os mornos interesses das elites brasileiras.

Por trás da hipocrisia deslavada (até com a demonização dos direitos das mulheres), só resta a linguagem insensata do fundamentalismo economicista: o Brasil é um “custo” a ser “cortado”. É a apologia dos meios (cortes dos custos) contra os fins (todos os brasileiros).

A vitória parcial, mas expressiva, de Dilma Rousseff contém muitos dos elementos inovadores desses oito anos de governo Lula: distribuição de renda, políticas culturais, democratização do ensino superior, formidável criação de empregos formais, demarcação das reservas indígenas e, enfim, uma política externa autônoma.

Contudo, na campanha do PT há também acentos do velho adágio: os fins justificam os meios. O crescimento (os meios) não precisa ser pensado, pois é justificado pelo fim (o desenvolvimento): uma siderúrgica se justifica por si.

A candidatura de Marina Silva foi o fato novo quando ela teve a coragem de dizer que os fins e os meios devem estar juntos. Cultura (desenvolvimento) e natureza não devem se opor, mas qualificar-se reciprocamente, na hibridização que eles são: natureza artificial e artifício natural!

Mas o modo como a “onda verde” juntou os jovens urbanos libertários aos piores fundamentalismos foi dramaticamente paradoxal: os meios e os fins acabaram se opondo entre si, de maneira insustentável.

O segundo turno desenha uma nítida alternativa. Por um lado, uma “coalizão dos meios” se apresenta como novo fundamentalismo abertamente reacionário. Seu regime discursivo é aquele do medo.

Não se sabe o preço social que todos pagaremos pelo leilão de paixões tristes (machismo, sexismo, racismo) atiçado pelos que nada têm a propor, a não ser uma virada protofascista.

Pelo outro lado, a “coalizão dos fins” pode se juntar aos meios e tornar-se sustentável diante dos novos desafios.

Se o capitalismo global inclui (explora) os pobres enquanto pobres fragmentos heterogêneos em competição no mercado, os pobres se organizam cada vez mais enquanto diferenças: favelados, negros, mestiços, mulheres, indígenas, quilombolas, gays, lésbicas, sem terra.

É aqui, nos pobres, que desenvolvimento e natureza estão juntos e o voto ecologista mantém sua potência. Para não ser capturada, a novidade da candidatura Marina deve apostar na democrática hibridização do social (“cultura”) e da natureza (meio ambiente), ou seja, na junção da resistência contra a volta da “peste neoliberal” com as políticas dos pobres.

É só no governo de Dilma que poderemos continuar lutando para transformar a quantidade (o crescimento) em qualidade (um outro tipo de desenvolvimento). A sustentabilidade é aquela da mestiçagem das ondas vermelha e verde, para além de e contra os fundamentalismos.

O apoio de Chico Buarque a Dilma

Publicado 14/10/2010 por leituraglobal
Categorias: Convite

da leitora Dulce Maia, publicado no blog Vi o Mundo em 10/10/2010

Um grupo de artistas e intelectuais liderados por Leonardo Boff, Chico Buarque, Emir Sader, Eric Nepumuceno está articulando adesões ao manifesto abaixo de apoio político a eleição de Dilma Roussef. Se você puder aderir agradeceríamos muito: mande sua adesão para emirsader@uol.com.brericnepomuceno@uol.com.br

E, se você puder, divulgue aos seus amigos do Rio para participarem do ATO POLITICO de entrega do manifesto à candidata, no Teatro CASA GRANDE, dia 18 de outubro, às 20 hs. (Rua Afranio de Mello Franco, 290- Leblon- Rio de janeiro).

MANIFESTO DE ARTISTAS E INTELECTUAIS PRO DILMA

Nós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes partidos, nos unimos para apoiar Dilma Rousseff. Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário internacional.

Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a erradicação da miséria e da desiguladade social. Um país que preserve sua dignidade reconquistada.

Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada brasileiro seus direitos fundamentais.

Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política externa soberana e solidária.

Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi conquistado.

Por tudo isso, declaramos, em conjunto, o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na direção de uma sociedade justa, solidária e soberana.

Leonardo Boff
Chico Buarque
Fernando Morais
Emir Sader
Eric Nepumuceno

Por que não devemos transformar as eleições em um plebiscito sobre o aborto

Publicado 13/10/2010 por leituraglobal
Categorias: Análise da semana

por Vinicius Wu, publicado no blog RS Urgente em 11/10/2010

Num país onde uma mulher morre, vítima de abortos ilegais, a cada dois dias, este certamente não é um tema sem importância. Assunto relevante, sem sombra de dúvida. Porém, posto da forma como assistimos nas últimas semanas, corre o risco de tornar-se apenas um falsete (*) eleitoral, capaz de comprometer o debate público a respeito do futuro do país e nos conduzir a um dramático retrocesso político.

Desde o início da campanha presidencial, os estrategistas da campanha Serra compartilham a certeza de que as chances de vitória do candidato do PSDB dependem diretamente de sua habilidade em desviar-se do debate sobre o presente e o futuro do Brasil. Cientes do desastre que seria para a candidatura Serra a comparação entre os governos Lula e FHC buscaram, sistematicamente, fugir do debate.

Inicialmente, propuseram o “contraste de biografias”, que não obteve sucesso. Mas, embalados pela onda conservadora das últimas semanas – adianto minha opinião de que a tal “onda verde” não passa de ficção – arrancaram um antes improvável segundo turno. Agora sabem que a única hipótese de Serra vencer as eleições é a permanência deste clima de distorção do debate político nacional, que parece ter transformado as eleições presidenciais num plebiscito sobre o aborto.

O falsete de Serra significa assumir uma posição que não é sua, que destoa completamente de sua tão propalada “biografia”, aderindo a um jogo sujo e retrógrado que faria Mario Covas enrubescer-se de vergonha. Serra é sacerdote de sua própria causa, de seus próprios interesses e seria capaz aderir à posição oposta à atual se vislumbrasse aí o caminho mais curto até a presidência.

O resultado do primeiro turno demonstra que a tal “onda verde”, na prática, foi muito mais modesta do que a onda conservadora, que deslocou intenções de voto na direção de Marina Silva. A candidata do PV, independente de seus méritos, não chegou a sua expressiva votação em virtude de sua agenda ambiental, mas em função de temas morais e religiosos.
Um contingente expressivo e “silencioso” escapou das sondagens feitas pelos institutos de pesquisa exatamente pelo fato de ser parte integrante da base social do “lulismo”. Este eleitor, em especial, no Nordeste e periferia das regiões metropolitanas do Sudeste, recusou-se a aderir à candidatura tucana e deslocou-se em direção a Marina como forma de mandar um “recado” a Lula, que pode ser traduzido da seguinte forma: “estamos satisfeitos com o país e confiamos em você, mas queremos segurança em relação a temas com os quais não temos acordo”.

Seria um erro acreditar que a mera adesão de Marina – e menos ainda do PV – a qualquer uma das candidaturas venha a transferir automaticamente estes votos para Serra ou Dilma. A tarefa fundamental da campanha Dilma, neste momento, é reorganizar e recoesionar sua base social. Num segundo momento será preciso deslocar a “agenda” das eleições em direção a temas com os quais Serra não pode se confrontar, tais como crescimento económico e distribuição de renda, privatizações e papel do Estado, política internacional, integração , desigualdade social e regional etc. Em outras palavras, é preciso evitar o plebiscito proposto pelas forças conservadoras.

No terreno proposto pelo adversário, Dilma encontrará grande dificuldade, pois, sua história e o espectro de forças políticas que a apóiam são incompatíveis com o obscurantismo e o reacionarismo tacanho que impregna o discurso de Serra. É preciso, portanto, restabelecer o debate acerca do futuro do país e rejeitar o falsete tucano. Não será uma tarefa simples. A reorganização da base social e política de apoio ao Presidente Lula é o primeiro passo fundamental neste sentido, mas a paralisia de nosso campo em torno de uma agenda conservadora não contribui para isto.

Reorganizar a base social que apóia o Presidente Lula pressupõe a recomposição dos laços sociais que nos unem a parcela expressiva dos vinte milhões que votaram em Marina. Afinal, estes são parte dos milhões de brasileiros que passaram a ter acesso a uma vida digna, seja migrando para a classe média, conquistando um emprego ou acessando, pela primeira vez, a luz elétrica.

Mas também fazem parte destes milhões de brasileiros, jovens desiludidos com a política e com os políticos, mas que desejam encontrar um sopro de esperança nestas eleições. Dilma deve assumir um discurso duro de enfrentamento a corrupção e demonstrar o quanto já foi feito pela PF, pela CGU e demais órgãos de controle, muitos dos quais criados durante o governo do Presidente Lula. José Serra não tem autoridade moral e nem condições políticas de assumir a batalha pela ética na política.
É hora de encerrar o plebiscito do atraso e falar do futuro que nos aguarda se soubermos seguir em frente; se optarmos por seguir mudando. É preciso tirar forças do atual momento para recompormos nosso compromisso com a mudança e, mais uma vez, evitar que o medo se sobreponha à esperança

Twitter: @vinicius_wu

(*) Falsete (tom falso) é a técnica vocal através da qual o cantor emite, de forma controlada, sons mais agudos que os de sua faixa de freqüência natural. No caso, é evidente que Serra jamais foi um “moralista” cristão, mas adere a retórica do atraso num pragmatismo atroz e irresponsável.

Dois pesos…

Publicado 06/10/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

A desqualificação do voto do pobre

por Maria Rita Kehl, no Estadão, via Vermelho, publicado em 2/10/2010

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Foto: Felipe Gesteira
A Bolsa-Família proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

O dedo na ferida

Publicado 27/09/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

A síntese de 2010: nunca a opinião pública esteve tão distante de seus supostos intérpretes

por Leonardo Attuc, publicado na revista Isto É de 27/9/2010

A poucos dias das eleições, tudo indica que de forma democrática, legítima e soberana o Brasil elegerá a primeira mulher presidente da República. Goste-se ou não de Dilma Rousseff, sua provável vitória no domingo 3 carrega uma mensagem. Os brasileiros, em sua esmagadora maioria, estão felizes com os rumos do País. Sentem-se mais prósperos e com um acréscimo considerável de autoestima. Apesar desse bem-estar, 2010 ficará marcado como o ano em que os anseios, as percepções e os desejos dos brasileiros foram solenemente ignorados por seus supostos intérpretes. Nunca, em toda a história do País, houve um distanciamento tão nítido entre a opinião pública e aqueles que deveriam, simplesmente, decifrá-la.

Engajados que foram durante todo o processo eleitoral, alguns agentes de proa da comunicação hoje enxergam o País como uma pré-ditadura. Uns dizem que o Brasil não tem mais cidadãos, mas apenas consumidores, que trocam direitos fundamentais por um prato de lentilhas. Outros afirmam que a oposição – e isso inclui parte da imprensa – está para Lula assim como os judeus estiveram para os nazistas. E que, portanto, seria hora de se preparar para a grande batalha de resistência democrática, como se a liberdade de expressão, um direito fundamental, corresse perigo. Há até quem já condene o sufrágio universal, argumentando que muitos brasileiros não estão preparados para votar porque desconhecem o significado de conceitos como quebra de sigilo e estado de direito.

O problema é que os supostos formadores de opinião se comportaram nos últimos meses com uma ideia fixa: a de que José Serra tinha o direito inalienável de ser presidente – e tudo o mais seria ilegítimo. Esqueceram-se de que a liberdade de imprensa permite que qualquer pessoa escreva, sob as penas da lei, que pacotes de dinheiro são distribuídos nos palácios, mas também assegura aos alvos das denúncias o direito de expressar suas opiniões. E quando alguém acusa A, B ou C de ser parcial, apenas exerce um direito. De concreto, o que o governo Lula fez contra a liberdade de expressão? Fechou emissoras de tevê, como Hugo Chávez? Não. Pediu a prisão de donos de jornais, como Cristina Kirchner? Também não. O único movimento nessa direção ocorreu em 2005, quando a ala stalinista no PT tentou usar a Polícia Federal na Operação Gutenberg para prender alguns jornalistas, porque teve interesses comerciais contrariados. Naquele momento, os fariseus que hoje gritam por liberdade ficaram calados. E a grande frustração dessa turma é apenas uma: por mais que tenham tentado empurrar Lula na direção do chavismo, ele não cruzou a fronteira. O que Dilma, se for inteligente, também não fará. O pior castigo é tratar os irrelevantes como irrelevantes.

Grande mídia planeja a “Venezuelização” do Brasil

Publicado 24/09/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

Alguns dos principais jornais do país estão, há algumas semanas, trabalhando diariamente para imputar ao Presidente Lula a pecha de “ditador” e qualificar a eventual vitoria de Dilma como uma ameaça à democracia. Foi o próprio Serra quem retomou o termo “República Sindicalista”, em reunião com militares no Rio de Janeiro. Agora, o remake de uma antiga propaganda de um periódico de São Paulo insinua comparações entre Lula e Hitler (sic), numa ignóbil peça publicitária que insulta a inteligência dos brasileiros. Cabe lembrar que, no sombrio despertar das ditaduras latino-americanas, golpistas jamais aplicam “golpes”. Na pior das hipóteses adotam “medidas extremas para salvar a democracia”. O artigo é de Vinicus Wu.

por Vinicius Wu, publicado na agência Carta Maior em 18/9/2010

“Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos“ (trecho do Editorial de “O Globo” de 1 de abril de 1964)

No sombrio despertar das ditaduras latino-americanas, ditadores jamais se apresentaram enquanto tal. Golpistas jamais aplicam “golpes”. Na pior das hipóteses adotam “medidas extremas” para salvaguardar a democracia, a liberdade e, em casos mais graves, o “sagrado” direito à propriedade. Esta foi uma das “inovações” mais bizarras das ditaduras que emergiram no contexto da guerra-fria. Não é por acaso que até hoje, nos círculos saudosistas do regime militar, o golpe que depôs o Presidente eleito João Goulart seja saudado como “Revolução Redentora”.

De acordo com esta narrativa, as prisões, as torturas, o silêncio imposto à livre manifestação do pensamento e a perseguição política não foram mais do que gestos em defesa da “liberdade”. Até aí nada de novo. Porém, deve causar inquietação entre as forças democráticas no Brasil de hoje o ressurgimento desta retórica com uma força perturbadora ao longo das ultimas semanas.

Alguns dos principais jornais do país estão, há algumas semanas, trabalhando diariamente para imputar ao Presidente Lula a pecha de “ditador” e qualificar a eventual vitoria de Dilma como uma ameaça à democracia.

Foi o próprio Serra quem retomou o termo “República Sindicalista”, em reunião com militares no Rio de Janeiro. Agora, o remake de uma antiga propaganda de um periódico de São Paulo insinua comparações entre Lula e Hitler (sic), numa ignóbil peça publicitária que insulta a inteligência dos brasileiros.

Justiça seja feita a um dos mais erráticos colunistas do jornal O Globo, que há alguns dias foi quem lançou a moda de comparar o presidente mais popular da história do país, eleito e reeleito pelo voto direto, ao líder nazista. O mesmo colunista andou reproduzindo um artigo denominado “A solução final” (sic), no qual era apresentada uma tosca análise de um recente pronunciamento do Presidente Lula.

É sim preocupante o movimento, pois, embora não tenha força social e condições políticas de se transformar em um novo golpe, contribui para a emergência de um clima de recrudescimento da luta política no país, que pode ter graves conseqüências para a democracia e um desfecho imprevisível nos próximos anos.

Na verdade, o que buscam é a “venezuelização” do país. Ou seja, trabalham abertamente para a criação de um ambiente político de instabilidade permanente, fragilização das instituições democráticas e deslegitimação do voto popular.

O que está em jogo é o cenário em que se dará a luta política no país no próximo período.

Diante do fato de que a eleição de Dilma parece ter-se tornado um acontecimento praticamente irreversível, a questão passa a ser a definição do cenário em que se dará a luta política ao longo de um eventual governo Dilma. Pretendem inaugurar um ambiente de “crise permanente”, de confronto político aberto entre posições irredutíveis.

A comparação com a Venezuela é inevitável. Afinal, muito se fala por aqui dos erros de Hugo Chávez (em grande medida reais). No entanto, pouco é dito a respeito do comportamento golpista, desrespeitoso e grotesco dos grandes conglomerados de comunicação venezuelanos, que frequentemente chamam o presidente do país de “macaquito”.

Em seu renitente cinismo, os grandes monopólios da comunicação brasileiros alertavam para o “risco” da importação do chavismo por Lula. Agora passam, de fato, a incentivar a “Venezuelização” do Brasil, importando um comportamento golpista e irresponsável, característico da grande mídia venezuelana.

Já que não conseguem derrotar Lula trabalham para criar um ambiente de enfraquecimento da autoridade e da legitimidade social e política daquela que deve ser a próxima presidente do país.

A vitória do amplo diálogo social inaugurado por Lula – um dos elementos chave do sucesso de seu governo – conta com a aversão de determinados setores da grande mídia, que perceberam a centralidade de combater o novo “pacto” social – inaugurado por Lula – em sua estratégia de derrotar o PT a qualquer custo.

À época de Goulart a deslegitimação da democracia fundava-se no argumento de que a fraqueza da democracia estava permitindo a “bolchevização” do país, através da supostas concessões que o governo Goulart fazia ao PCB.

Na época atual, os esforços em favor da mesma deslegitimação visam atingir diretamente a figura do Presidente, identificando-o com o autoritarismo, o paternalismo e o clientelismo. Um grau de irresponsabilidade só compreensível face à enormidade do preconceito que lhes move.

Uma imprensa capaz de comparar um presidente democrata e com enorme popularidade ao criador de uma das maiores tragédias do século XX só pode mesmo estar disposta a tudo para fazer prevalecer sua visão de “democracia”. Estejamos atentos.

Por que a grande mídia e a oposição resolveram jogar sujo

Publicado 22/09/2010 por leituraglobal
Categorias: Artigo

A grande mídia e a oposição não compreenderam que o país entrou em um novo período histórico e, desta forma, correm o risco de ficarem falando sozinhas por um bom tempo. As pessoas não estão votando em personalidades, como supunham os próceres da campanha Serra. Estão votando no futuro – no seu futuro e no futuro do país. A disputa eleitoral de 2010 não ficará marcada pelo “confronto de biografias”, como imaginavam os tucanos e seus aliados no início da campanha. Derrotados em seus próprios conceitos; perplexos diante de uma ampla maioria que lhes vira as costas, só lhes resta o golpe, que não tem força pra dar. O artigo é de Vinicius Wu.

por Vinicius Wu, publicado na Carta Maior em 21/9/2010

Revisitemos as declarações de Serra e de diversos articulistas da grande mídia simpáticos à sua candidatura ao longo de 2009 e início deste ano. Sem esforço, perceberemos que sua estratégia eleitoral baseava-se na tese do “contraste de biografias”. Inebriado por sua vaidade, Serra alimentou a certeza de que a comparação de sua trajetória política com a de Dilma seria a senha para a vitória. Ocorre que o povo brasileiro rejeitou a fulanização do debate. Optou por contrastar os projetos de Brasil disponíveis e sepultou as pretensões tucanas nestas eleições.

Mas o drama da oposição não termina aí. Afinal, estamos diante de um processo ainda mais complexo, que está na origem da impotência política da oposição hoje. Diante do atual cenário, tiveram de optar entre a resignação diante da derrota e o surto golpista que assistimos nos últimos dias. Compreender os motivos que desencadearam este processo é o que buscaremos nas próximas linhas.

Crise do neoliberalismo e mudança do léxico político brasileiro
As eleições de 2010 encerram a profunda alteração do léxico político brasileiro em curso desde o embate eleitoral de 2002. A crise do paradigma neoliberal possibilitou uma mudança radical dos termos e dos conceitos através dos quais se organiza a luta política no país.

Se nas eleições de 1994 e 1998 o debate eleitoral orbitava em torno do tema da “estabilidade”, desde 2002 vivemos um profundo deslocamento do debate em direção aos temas do desenvolvimento, da inclusão social e distribuição de renda. Ou seja, a disputa política passou a se desenvolver a partir de temas estranhos ao receituário neoliberal. Esta foi a grande derrota política do bloco conservador proporcionada pela vitória de Lula em 2002.

Portanto, o debate político nacional nos últimos anos passou por uma verdadeira metamorfose que desencadeou: 1. Uma mudança de problemática: da manutenção da estabilidade econômica e do ajuste fiscal para a busca do desenvolvimento e da justiça social; 2. uma alteração da lógica argumentativa: a defesa das privatizações e do enxugamento do Estado cedeu lugar ao combate às desigualdades e ampliação do alcance das políticas públicas e; 3. uma mudança de conceitos: crescimento econômico, papel indutor do Estado, distribuição de renda, cidadania etc. passam a integrar, progressivamente, o discurso de todas as correntes políticas do país.

Este é o grande legado político da “Era Lula” e diante do qual as respostas da direita brasileira foram absolutamente insuficientes até aqui.

O novo protagonismo dos pobres
Paralelamente ao processo supramencionado, foi sendo desenvolvida uma nova consciência das camadas populares no país, que identificaram em Lula a expressão viva de seu novo protagonismo. O operário do ABC paulista alçado à condição de Presidente mais popular da história da República é a síntese perfeita da nova condição política dos “de baixo”.

Ao afirmar recentemente que “nós” somos a opinião pública, o Presidente Lula não está cedendo a nenhuma tentação autoritária, como desejam alguns mal intencionados articulistas da grande mídia. O que está em jogo é o fim da tutela dos “formadores de opinião” sobre a formação da opinião nacional. Este é o motivo do desespero crescente da mídia monopolista do centro-sul do país.

Há uma revolução democrática em curso no Brasil e ela altera profundamente a forma como os pobres se relacionam com a política. O país vivencia uma inédita e profunda reestruturação de seu sistema de classes. As implicações deste processo para o futuro da nação ainda não são mensuráveis.

A grande mídia e a oposição não compreenderam que o país entrou em um novo período histórico e, desta forma, correm o risco de ficarem falando sozinhas por um bom tempo.

As pessoas não estão votando em personalidades, como supunham os próceres da campanha Serra. Estão votando no futuro – no seu futuro e no futuro do país.

A disputa eleitoral de 2010 não ficará marcada pelo “confronto de biografias”. Esta é a eleição da aposta no “Devir-Brasil” no mundo, como sugere Giuseppe Cocco. O país recompôs a esperança em seu futuro e deseja ser grande. Os brasileiros querem continuar mudando e, principalmente, melhorando suas vidas.

E o eleitor brasileiro não está “inebriado pelo consumo” como afirmou, revoltado, um dos mais preconceituosos articulistas da grande mídia. Os seres humanos fazem planos, sonham, imaginam uma vida melhor para si e para seus filhos. As pessoas estão sim – e é absolutamente legitimo que o façam – votando com a cabeça no seu próximo emprego; no seu próximo carro ou eletrodoméstico; no seu próximo empreendimento; na faculdade dos seus filhos; em seus filhos… É uma opção consciente. Não querem retroagir, preferem a continuidade da mudança conduzida por Lula, por mais que esperneiem os articulistas sempre bem pagos da grande mídia.

A “Conservação” da mudança
Talvez, nem o próprio Presidente Lula tenha se dado conta de uma outra – e também decisiva – derrota imposta ao bloco conservador. Trata-se da apropriação e ressignificação de um dos conceitos mais caros ao neoliberalismo.

Lula tomou para si a primazia da estabilidade. A defesa da estabilidade (quem diria?!) passa ser tarefa da esquerda brasileira. Mas não a estabilidade neoliberal, e sim uma nova estabilidade; a da continuidade da mudança.

O slogan da campanha Dilma não poderia ter sido mais adequado: “Para o Brasil seguir mudando”. Esta é a perfeita síntese da opinião popular no atual período; continuar mudando para que permaneçam abertas – e se ampliem – as possibilidades de mobilidade social, de emancipação e prosperidade econômica. A mensagem é simples e foi acolhida pela maioria do povo brasileiro: “conservar” a mudança e não retroagir.

A “venezuelização” do comportamento da grande mídia
Derrotados em seus próprios conceitos; perplexos diante de uma ampla maioria que lhes vira as costas (só 4% da população rejeitam Lula); impotentes diante de uma nova realidade, que se impõe diante de seus olhos, só lhes resta o golpe, que não tem força pra dar.

E se não podem “restaurar a democracia” à força, resta-lhes, então, trabalhar para que a disputa política no próximo período se dê em outros termos. Como imaginam que estarão livres da força de Lula a partir de Janeiro de 2011, iniciam uma virulenta campanha de difamação, deslegitimação e questionamento da autoridade daquela que deverá ser a primeira Presidenta do país.

Desejam fazer do Brasil uma nova Venezuela, onde posições irreconciliáveis travam uma luta sem tréguas, instaurando um clima de instabilidade e insegurança generalizado. Querem que oposição e governo não dialoguem. Preferem a radicalização ao entendimento. Concluíram que esta é a única maneira de derrotar as forças populares no futuro. Precisam retirar de nossas mãos o primado da estabilidade. Querem, de fato, venezuelizar o Brasil.

Mal se deram conta de que quase ninguém sairá vencedor em Outubro confrontando-se com Lula. Em todas as regiões do país, candidatos oposicionistas bem sucedidos resolveram absorver Lula e o sucesso de seu governo. Raros serão os candidatos oposicionistas que vencerão com discurso de oposição.

A “venezuelização” que pretendem esbarrará na força política que se assenta na emergência de um novo Brasil, que estamos a construir, e na fé de nosso povo em um futuro diferente daquele que imaginaram as oligarquias deste país.

Twitter: @vinicius_wu

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ

Publicado 23/08/2010 por leituraglobal
Categorias: Carta

Ao contrário do que pretendem afirmar alguns setores da imprensa, o debate em torno de políticas afirmativas e de sua implementação no ensino universitário brasileiro não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor, “racialista” ou não, da sociedade. Soma-se quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.

Atualmente, cerca de 130 universidades públicas brasileiras já adotaram políticas afirmativas – entre as quais, a das cotas raciais – como critério de acesso à formação universitária. Entre estas instituições figuram a UFMG, a UFRGS, a Unicamp, a UnB e a USP, que estão entre as mais importantes universidades brasileiras.

Em editorial da última terça-feira, 17 de agosto, intitulado “UFRJ rejeita insensatas cotas raciais”, o jornal O Globo assume, de forma facciosa, uma posição contrária a essas políticas afirmativas. O texto desmerece as ações encaminhadas por mais de cem universidades públicas e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ. Distorcendo os fatos, o editorial fala em “inconstitucionalidade” da aplicação do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no Supremo Tribunal Federal não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para a aplicação de suas políticas afirmativas.

Na última década, enquanto a discussão crescia em todo o país, a UFRJ deu poucos passos, ou quase nenhum, para fazer avançar o debate sobre as políticas públicas. O acesso dos estudantes à UFRJ continua limitado ao vestibular, com uma mera pré-seleção por meio do ENEM, o que significa um processo ainda excludente de seleção para a entrada na universidade pública. Apesar disso, do mês de março para cá, o debate sobre as cotas foi relançado na UFRJ e, hoje, váriasdecisões podem ser tomadas com melhor conhecimento do problema e das posições dos diferentes setores da sociedade em relação ao assunto.

Se pretendemos avançar rumo a uma democracia real, capaz de assegurar espaços de oportunidades iguais para todos, o acesso à universidade pública deve ser repensado. Isto significa que é preciso levar em conta os diferentes perfis dos estudantes brasileiros, em vez de seguir camuflando a realidade com discursos sobre “mérito” (como se a própria noção não fosse problemática e como se fosse possível comparar méritos de  pessoas de condição social e trajetórias totalmente díspares) ou sobre “miscigenação” (como se não houvesse uma história de exclusão dos “menos mestiços” bem atrás de todos nós).

Cotas sociais – e, fundamentalmente, aquelas que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros – abrem caminhos para que pobres dêem prosseguimento aos seus estudos, prejudicado por um ensino básico predominantemente deficiente. Só assim os dirigentes e professores das universidades brasileiras poderão continuar fazendo seu trabalho de cabeça erguida. Só assim a comunidade universitária poderá avançar, junto com o país e na contra-mão da imprensa retrógrada, representada por O Globo, em direção a um reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, crimes que, justamente, por ainda não terem sido reconhecidos como crimes que são, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.

Assinam os professores:

Amaury Fernandes – Escola de Comunicação

André Martins Vilar de Carvalho – Filosofia/IFCS e Faculdade de Medicina

Anita Leandro – Escola de Comunicação

Antonio Carlos de Souza Lima – Museu Nacional

Clovis Montenegro de Lima – FACC/UFRJ-IBICT

Eduardo Viveiros de Castro – Museu Nacional

Denilson Lopes – Escola de Comunicação

Fernando Rabossi – IFCS

Fernando Alvares Salis – Escola de Comunicação

Fernando Santoro – IFCS

Flávio Gomes – IFCS

Giuseppe Mario Cocco – Professor Titular, Escola de Serviço Social; Cientista do Nosso Estado

Heloisa Buarque de Hollanda – Professora Titular, Escola de Comunicação/Forum de Ciência e Cultura

Henrique Antoun – Escola de Comunicação

Ivana Bentes – Diretora, Escola de Comunicação

Leonarda Musumeci – Instituto de Economia

Lilia Irmeli Arany Prado – Observatório de Valongo

Liv Sovik – Escola de Comunicação

Liz-Rejane Issberner – FACC/UFRJ-IBICT

Marcelo Paixão – Instituto de Economia

Marcio Goldman – Museu Nacional

Marlise Vinagre – Escola de Serviço Social

Nelson Maculan – Professor titular da COPPE e ex-reitor da UFRJ

Olívia Cunha – Museu Nacional

Otávio Velho – Professor Emérito, Museu Nacional

Paulo G. Domenech Oneto – Escola de Comunicação

Renzo Taddei – Escola de Comunicação

Samuel Araujo – Escola de Música

Suzy dos Santos – Escola de Comunicação

Tatiana Roque – Instituto de Matemática

Virgínia Kastrup – Instituto de Psicologia

Por que Serra perdeu o debate na Band

Publicado 06/08/2010 por leituraglobal
Categorias: Análise da semana

por Vinicius Wu

Debate entre candidatos não é tourada. Não cai um boi morto no chão ao final. É sempre difícil avaliar o resultado de um debate. Cada lado sai em defesa de seu candidato e a repercussão na mídia é disputada nos dias posteriores. Mas há sim uma questão relevante a ser considerada. Trata-se do papel que o debate ocupa na estratégia de um determinado candidato. Serra apostou, sim, nos debates na TV. Era sua “cartada” decisiva contra uma candidata “inexperiente”. Se considerarmos este fato, podemos sim afirmar que Serra foi quem mais perdeu com o debate.

Como se insere na estratégia de Dilma os debates na TV? Bem, não é preciso muito esforço para percebermos que os debates não estão no centro de sua estratégia. Explorar o sucesso dos dois governos Lula, ressaltar o papel que Dilma desempenhou na gestão das principais políticas de governo etc. tem um peso muito mais destacado no conceito de sua campanha, evidentemente. Para Dilma, bastava ir ao debate e “empatar” o jogo. Ainda mais agora, após a divulgação da pesquisa CNT/Sensus, onde a candidata aparece com dez pontos de vantagem sobre Serra.

Serra, pelo contrário, desde o início, apostou nos debates. Não sou eu quem está afirmando isto. Basta olharmos as dezenas de artigos dos colunistas simpáticos ao PSDB nos últimos meses. Basta revisitarmos as inúmeras declarações dos dirigentes da campanha tucana e do próprio serra. Criaram uma enorme expectativa em torno da esperança de verem Serra surrar Dilma nos debates. Definitivamente, não foi isto o que ocorreu.

Dilma estava nervosa? Bom, tirando o Plínio, todos estavam nervosos nos primeiros blocos. Dilma poderia ter se saído melhor? Certamente, até pela qualidade que possui. Mas a vitoria acachapante de Serra não veio e o problema é que ela estava no centro de sua estratégia.

E ainda tinha semifinal da Libertadores no meio do caminho…

O eleitorado brasileiro amadureceu o suficiente para não definir seu voto – e seu futuro – baseado em truques de debate ou produção de TV. Debates e programas de TV são importantes, certamente. Mas não parece que as próximas eleições serão decididas por nenhuma estratégia de marketing. O povo brasileiro vai julgar não apenas os últimos oito anos. Julgará os últimos dezesseis e lançará uma aposta para os próximos oito.

Serra errou muitas vezes até aqui em sua campanha. Errou novamente ao anunciar, antecipadamente, sua vitória “acachapante” nos debates da TV. Ao confiar tanto em sua performance e experiência em eleições, Serra abriu espaço para a frustração de seus correligionários diante do resultado do debate.

Não foi o debate propriamente o que definiu a derrota de Serra ontem. Foi a orientação estratégica de sua campanha, que criou tanta expectativa em torno de sua suposta “superioridade” nos debates.


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