Não é paixão, é crime
por Alberto Kopittke
O recente ato criminoso de cárcere ocorrido em Canoas/RS, em que um homem permaneceu mais de 60 horas com sua ex-companheira presa em casa e sob ameaça, merece uma séria reflexão. A repercussão do fato como um crime passional, ou “resultado de uma paixão doentia”, acaba por romantizar mais um grave caso de violência contra a mulher. O perigo deste tipo de repercussão é a multiplicação de um referencial equivocado que coloca o homem agressor como vítima, em razão de um sentimento de forte paixão que o leva a cometer atos impensados.
Essa visão ainda é impregnada de um dos mais fortes preconceitos que fazem parte da formação histórica de nosso país e, especialmente, do Rio Grande do Sul: o machismo. Em que pese importantes avanços jurídicos e culturais, vale lembrar que há apenas duas décadas, nossa Constituição incluiu as diferenças de gêneros dentro do instituto da igualdade de nosso país, o que só foi absorvido há apenas sete anos pelo novo Código Civil que regula as relações familiares. E somente no Governo Lula que este grave problema social se tornou objeto de políticas públicas através da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e de ações como as Mulheres da Paz, do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania).
Se é verdade que ocorreram grandes avanços da inserção da mulher na sociedade, também é verdade que ainda perduram graves e profundas diferenças que comprovam que o preconceito contra as mulheres ainda é uma triste realidade. Mas em nenhum outro caso, o machismo apresenta com mais clareza sua face do que quando esse preconceito se materializa em violência no lar. Esse problema é de tal magnitude que sua existência de maneira alguma se restringe a uma questão de ordem privada. A violência contra a mulher é um problema público, que corrói toda a base de valores das relações sociais em nosso país.
Fazendo um triste e realista trocadilho, a violência contra as mulheres é a mãe de todas as outras violências. É na manifestação da violência dentro de casa que são plantadas as sementes da violência da juventude brasileira.
* Alberto Kopittke é secretário Municipal de Segurança Pública e Cidadania de Canoas (RS)
akopittke@yahoo.com / Twitter: @akopittke

24/02/2010 às 22:18
Concordo com o terrível equivoco de uma possível interpretação romântica em relação a tal violência, de ordem física e emocional e pergunto, e as crianças? Que prejuízos resultaram dos fatos vividos? O que vão reproduzir a partir do ocorrido? foram bem conduzidas e acompanhadas? Esperamos que tenham recebido todo o apoio possível para suportar o que não esquecerão, tão cedo. Ambas estão na nossa escola.Teremos notícias.
24/02/2010 às 22:51
Muito bom. “Mas em nenhum outro caso, o machismo apresenta com mais clareza sua face do que quando esse preconceito se materializa em violência no lar.”
Parabéns pelo artigo
25/02/2010 às 0:12
O artigo retrata o que acaba por se pensar sempre: “que o homem agiu por amor” quando trata-se de posse do corpo desta mulher e de sua liberdade. Pesquisas demostram que as mulheres que sofrem violência doméstica e familiar tem medo da separação, porque sabem que neste momento correm real risco de vida. Um estudo realizado pelo SSP do RS decorrente de determinação da Lei Maria da Penha, demonstra que este medo se concretiza, pois os homicídios ocorridos contra mulheres nestas circunstâncias, ou a forma de homicídio tentado, ocorreram exatamente ao final da relação, quando o homem então não aceita a decisão da mulher, e acredita em seu machismo, ter o poder de vida ou morte. E ainda na década de 70 os homens que assassinavam “suas” mulheres eram absolvidos por legítima defesa da honra!
Parabéns pelo artigo! É bom ler e escutar homens falando sobre a violência contra a mulher.
25/02/2010 às 9:18
Parabéns pelo artigo. Que bom que cada dia mais homens escutam, dialogam, escrevem sobre Violência contra a mulher, é assim que mudar comportamentos.
25/02/2010 às 9:51
Secretário Alberto,
parabéns pelo artigo sucinto, claro e direto sobre o tema da violência doméstica contra a mulher.Ao lê-lo pensei: é assim que vamos desconstruindo conceitos equivocados e construindo novos modos de pensar e agir. Homens (não só mulheres) refletindo sobre o machismo, dominação, violência.
Bela contribuição para formação de relações inter-pessoais em todos os âmbitos, pautadas em valores como respeito, igualdade e paz!
25/02/2010 às 14:12
Parabéns Alberto! Muito bom teu artigo… melhor ainda por ser um homem defendendo nossos direitos.
25/02/2010 às 15:32
Alberto
Um Brasil de homens e mulheres iguais é o que estamos contruindo. Tua atitude ao escrever este texto demonstra que caminhamos pela estrada correta. Combater e erradicar a violência contra as mulheres é o nosso maior desejo!
Um grande abraço!
26/02/2010 às 8:41
Alberto
A violencia nao tem justificativa, muito menos o machismo. Temos que acabar com a violencia contra as mulheres, vejo como possibilidade muitas politicas publicas sendo implantadas, isso nos ajudará com certeza.
um abraço!
26/02/2010 às 16:01
Conversas como essas nos elucidam a respeito da postura dos nossos meios de comunicação, além de, tantas parcialidades e tendências ideológicas ja claramente manifestadas, temos que agora conviver com informações de cunho machista manifestada pela grande mídia.
Sinceramente, se não fosse por essa nossa conversação não teria me atido a essa “subjetividade” do fato. Que sigamos debatendo os mais variáveis assuntos, assim todos saímos ganhando.
Att,
Cássio Fornos