Crise global e os novos desafios da Esquerda

por Fernando Stern*, colaborador eventual

O debate promovido pela Mensagem ao Partido do Rio de Janeiro na Universidade Cândido Mendes na última quinta-feira foi um dos mais ricos acontecimentos político/acadêmicos dos últimos tempos em nosso Estado. Mesmo numa quinta-feira à noite, com todos os problemas oferecidos pela vida na metrópole para o deslocamento das pessoas Giuseppe Cocco, Tarso Genro, Ivana Bentes, Cândido Mendes e Waldeck Carneiro, sob a mediação de Zaqueu Teixeira, ofereceram aos mais de 120 privilegiados que lotaram o auditório do 42o andar da UCAM, diferentes, porém bem construídas opiniões acerca da atual (e passageira no caso brasileiro) crise global, suas conseqüências para o capitalismo e os desafios colocados para a Esquerda doravante.

Os blogs Leitura Global e Mensagem ao Partido-RJ acompanharam o evento além da TV da Universidade Cândido Mendes que filmou todo o debate e deve incluí-lo em sua faixa de programação dentro do canal universitário do Rio de Janeiro – UTV.

O professor Cândido Mendes, com a habitual clareza na exposição de suas idéias afirmou que o “Brasil escapou da crise porque os pobres continuaram comendo”, ou seja, que a capacidade do país em manter o consumo interno, a capacidade adquirida pelos pobres de consumir a partir do governo Lula, foi fundamental para a diminuição dos efeitos da propalada crise global. Também chegaram ao debate postulações sobre a individuação do coletivo que fragmenta demandas e impede a antiga estrutura partidária de esquerda de manter o mesmo tipo de diálogo que se acostumou a fazer. “Como estão construir um novo partido, um novo sujeito político?”, perguntou Cocco. Essa questão tomou boa parte do debate demonstrando as diferentes percepções deste fenômeno dentro do campo da esquerda brasileira.

O Ministro da Justiça, Tarso Genro afirmou que “não deveríamos objetivar a transição do socialismo utópico ao cientifico, mas sim uma sociedade livremente orientada”. Além disto, fez diversas colaborações ao debate, reafirmando que a consolidação da democracia continua sendo um grande desafio. Tarso levantou três questões fundamentais que hoje permeiam o processo de consolidação democrática.

Em primeiro lugar, a fragmentação da vida política vem causando maior afastamento e até mesmo um estranhamento entre representante e representado, exemplo disto é a grande quantidade pessoas que não se recorda em quem votaram nas últimas eleições.

A segunda questão passa por uma crescente criminalização da política que é representada por uma cada vez maior negação do parlamento e de seu papel e pela defesa da tecnificação da função pública. Ambos os exemplos reduzem ou procuram excluir a dimensão ideológica da política e induzem a idéia de que todos são iguais e que há apenas uma forma de se administrar e tocar em frente o Estado.

Por fim, há um controle midiático, que promove uma ocupação do processo de formação da opinião pública. Três casos gritantes foram citados: O combate que se fez a criação do Prouni, a tentativa de desqualificar qualquer ação que discuta a punição dos torturadores do regime militar (por mais que tortura seja considerada crime imprescritível) e, mais recentemente, o caso Cesare Battisti que todos têm acompanhado pela imprensa. Em todos os casos se procurou forjar uma opinião pública de forma tão firme que  qualquer um, se desinformado em relação ao tema, apenas lendo os jornais, se colocaria contra a criação do Prouni, o julgamento aos torturadores e ao refúgio a Battisti. Dentro deste controle midiático, não há lugar para esquerda.

Ao fim do debate, todos saíram com muitas questões e com a certeza de que muitos debates como o do dia 17 de Setembro devem ser ainda realizados em todos os espaços possíveis para que possamos reorganizar e reagrupar o pensamento e a ação de esquerda de acordo com a realidade e os desafios da atualidade e do futuro. Certamente, a Internet é um espaço privilegiado para isso, pois é a própria expressão dos novos tempos com sua tendência à fragmentação e possibilidades infinitas e democráticas de conexões e criação de redes.

* Fernando Stern é psicólogo, consultor da UNESCO, membro do Comitê de Articulação do Pronasci no Rio de Janeiro e colabora com os blogs Mensagem ao Partdo RJ e Leitura Global.

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